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O mistério do orelhão amarelo

OS AGENTES SECRETOS E O ESCRITOR EDUARDO MARTÍNEZ

Publicado

Autor/Imagem:
B. de Poli e J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

A agente B. parecia muito preocupada quando o parceiro entrou na cafeteria, um pouco atrasado e ofegante.

— O que houve, querida B? — perguntou ele, intrigado. Por que você me chamou aqui às pressas?

— Não me diga que você ainda não leu, J., quer dizer, Don! Fui descoberta por um escritor enxerido chamado EM … Ele nem imagina o problema que causou a publicação desse conto. Parece que foi incentivado pela esposa dele, talvez uma agente inimiga da nossa corporação!

— Não, B., eu conheço bem a talentosa escritora Donaí, ela é das nossas! Usa até sandálias Ha-vaianas e tudo…

— Ah, bem, isso a isenta de suspeitas, gemeu B., enquanto entregava o conto impresso para o par-ceiro ler.

— Pelos deuses, como o Eduardo foi nos colocar nessa fria? — surpreendeu-se o agente secreto. Logo ele, sempre tão discreto, solícito, amável e disposto a ajudar a todos que se aproximam dele, ressaltou.

— Pois é… — replicou B.

— Ele até me deu a honra de escrever o prefácio da minha coletânea de contos que será lança-da este ano — lembrou Don, o J., emocionado.

Vendo o companheiro tão compungido, B. resolveu aliviar a situação:

— Bem, querido Don, até você que só escreve nas horas vagas sabe do que um escritor é capaz em busca de inspiração… Você mesmo já expôs Nataniel, o monstro genocida, capitão Rodrigues, o galã bígamo, nosso colega JC, o conquistador incansável, Alexandre, o Grande e outros! Acho que o EM não fez por mal, ele viu você no orelhão amarelo do Agente Secreto e deduziu coisas.

— Verdade mais do que verdadeira — suspirou o Rei dos Folhetins.

— Mas o fato é que, com a minha identidade exposta, não posso mais ser a sua dupla, lamentou a agente-escritora.

— Ah, não, isso não — quase gritou Don. Somos tão afinados que não me vejo trabalhando com mais ninguém da corporação!

— Pois é, eu também vou sentir muito a sua falta. Mas quem sabe você não ganha aquela loira es-cultural – como já a denominou uma vez – do Departamento de Crimes Cibernéticos como parcei-ra?— disse B., tentando aparentar desprendimento, enquanto seus olhos a desmentiam.

— Hum… até poderia ser, quem sabe? — deixou escapar o incauto agente.

— Certo, e agora pensando bem, eu poderia pedir para me colocarem junto com o P. Pascal — retribuiu à altura B., com ar de naturalidade.

Don arqueou as sobrancelhas, seu gesto habitual quando não gostava de alguma coisa e mudou de tom.

— Não, não e não, querida B.! Vamos lutar para continuarmos juntos. Você ganha outra identidade , pinta os cabelos de ruivo, quem sabe coloca lentes castanhas nos olhos, adota outro codinome, enfim, haveremos de encontrar um jeito!

— Podemos tentar… E como seria o meu novo codinome, Don? — aceitou ela, docemente.

— Que tal CL? — arriscou ele

— CL, da maravilhosa Clarice Lispector? Você é mesmo um intelectual, Don…

— Não, B, CL de Café Literário, uma homenagem ao editor-chefe EM, porque apesar do problemão que ele nos criou, temos que admitir que aquele conto foi genial!

B. apenas sacudiu a cabeça, concordando. Pediram um cálice de Clericot e, enquanto brindavam, com Don já aliviado por tudo terminar bem, B. disparou:

— Don, ainda me restam duas dúvidas …

— Hum… e quais seriam, parceira?

— Qual o tom de ruivo que devo usar no cabelo e, afinal, com quem você falava no orelhão?

Após ouvir a parceira mencionar o segundo questionamento, Don emborcou toda a taça de Clericot de uma vez só…

FIM (?!)

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