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Chuva ou seca

Os avós que viviam onde o ‘vento faz a curva’ no Nordeste

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Autor/Imagem:
Acssa Maria - Texto e Foto

No tempo dos meus avós, o vento não era só vento — era aviso, era recado, era companhia. No sertão nordestino, ele fazia curva nas estradas de barro, levantava poeira nas porteiras e anunciava, com um sopro diferente, se vinha chuva ou se a seca ainda insistia em ficar.

O Nordeste dos meus avós era feito de chão rachado, mas também de esperança plantada. As casas de taipa resistiam ao tempo, as estradas eram caminhos de poeira e fé. No alpendre, as cadeiras de balanço guardavam histórias contadas ao cair da tarde.

A seca era presença constante, especialmente no coração do Sertão do Nordeste. Mas, quando a chuva chegava, era festa. O cheiro da terra molhada virava poesia viva, quase um milagre testemunhado por todos.

A rotina começava antes do sol nascer. O trabalho na roça era pesado, mas digno. Plantava-se milho, feijão e mandioca. A farinha era feita no braço, a carne de sol salgada no varal, o leite tirado ainda na madrugada.

Nas feiras livres, mais do que produtos, trocavam-se causos e notícias. A fé era alicerce — nas novenas, nas procissões, nas promessas feitas aos santos. A igreja era ponto de encontro e de consolo.

O Nordeste de outrora também cantava suas dores e alegrias. O forró pé de serra embalava as noites iluminadas por lamparinas. A sanfona ecoava como a voz do próprio sertão, eternizada por Luiz Gonzaga, que transformou a seca, o amor e a saudade em canção.

A literatura de cordel pendurada em barbantes narrava valentias, romances e milagres. Os repentistas improvisavam versos como quem planta sementes no vento.

O Nordeste dos meus avós não era fácil — mas era forte. Era um tempo em que a palavra tinha peso, o aperto de mão valia contrato e a vizinhança era extensão da família.

Hoje, muita coisa mudou. As estradas ganharam asfalto, a tecnologia chegou, o mundo encurtou distâncias. Mas há algo que permanece intacto: a coragem de quem aprendeu a viver onde o vento faz a curva.

Porque, no fim das contas, o Nordeste não é apenas um lugar no mapa — é herança, é raiz, é resistência que atravessa gerações.

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