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Lago Sul

Os caminhos percorridos por Carolina

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Carolina carregava uma dúvida sobre Cristiano, o noivo, cujos atributos não passavam de mera ficção por conta dos devaneios de dona Lia, que enaltecia o filho como mães costumam fazer. No entanto, no caso em questão, os exageros, de tão constrangedores, chegavam carregados de patologia. Mesmo ciente da situação, a jovem não queria desfazer o enlace por razões que eram até plausíveis, ainda que alguém pudesse contestar o primeiro, mas certamente entenderia o segundo.

Bem, o primeiro motivo era a proximidade do casamento, que aconteceria na semana seguinte. Se ela poderia declinar após quase dois anos de noivado, não resta dúvida. Iria se criar mal-estar momentâneo, que poderia se prolongar por, digamos, semanas e até meses, mas logo ninguém mais se lembraria do ocorrido. Todavia, aceitemos tal premissa como verdadeira, apesar de não podermos descartar que, talvez, Carolina fosse do tipo acanhada e, por conseguinte, preferisse passar o resto da vida casada com uma fraude a enfrentar, por mais curto que fosse o período, as críticas que, obviamente, recairiam sobre ela.

Mas eis que chegamos ao segundo e crucial motivo. Sim, aquele que consegue abalar qualquer decisão, como se fosse a própria razão. E com tal detalhe, sejamos honestos, são raríssimos os de nós que conseguem ignorá-lo. O dinheiro. Sim, o dinheiro. Você até poderia levantar questão sobre esse assunto. Mas o dinheiro? Pois lhe digo sem me abster por completo do caráter ou, ao menos, de parte significativa dele, que o dinheiro nos corrompe a todos. Não a todos, pois não sou ingênuo de descartar que há um ou outro tolo que, talvez receoso de possível repreensão divina, há de se afastar antes que a tentação o corrompa.

De beleza muito acima dos meros mortais, Carolina, diferente das propagadas qualidades inexistentes do noivo, fazia questão de esconder os defeitos que lhe eram próprios. E não eram poucos, o que poderia, a princípio, causar estranheza aos que achavam que conheciam a moçoila. Um deles, que tentava a todo custo escamotear, era fazer das unhas fio dental. Quando percebia, lá estava cutucando entre os dentes e, para disfarçar, fingia que havia machucado a ponta do dedo com algo. Quase ninguém acreditava, mas fingia solidariedade por mera etiqueta.

Quando chegou o dia, casou-se de véu e grinalda, mas sem se esquecer de antes assinar a papelada no cartório, o que lhe garantiria, de fato, usar o sobrenome de uma das mais tradicionais famílias de Brasília: Costa. Mesmo assim, quando o juiz de paz informou aos noivos que, a partir daquele momento, eles estavam casados, Carolina sorriu, mas fez questão de frisar que não era bem assim.

— Desculpe, senhor juiz, mas só me considerarei realmente casada após o padre disser que estou. E tudo aos olhos de Deus.

Até dona Lia, que tinha lá suas ressalvas em relação à nora, ficou positivamente admirada e, num gesto espontâneo, apertou a mão de Carolina como sinal de aprovação.

— Seja bem-vinda à família Costa, minha filha.

A lua de mel aconteceu em Bariloche, sugestão de dona Lia. Carolina, que só conhecia Caldas Novas, aprovou mesmo desconhecendo onde ficava. Entretanto, por conta da sonoridade, imaginou que fosse Europa ou Estados Unidos. Por precaução, guardou a dúvida para si, o que evitou que perdesse preciosos pontos com a família do esposo.

Depois de alguns meses, Carolina se descobriu grávida. Fez questão ir até a sogra para lhe informar antes de contar para o Cristiano. Sábia decisão, pois, dessa forma, conseguiu aproximar ainda mais dona Lia para si. Não que gostasse ou tivesse aversão à mãe de seu marido, era questão de estratégia de sobrevivência.

Carolina desejou que fosse menina, mas quis o destino que estivesse grávida de um varão. Não daria para homenagear a sogra com uma neta com o seu nome. Que fosse, ela daria um jeito e, não tardou, encontrou uma solução que, diga-se de passagem, saiu muito melhor do que o esperado.

Lá estavam dona Lia, o marido, o filho e a nora confortavelmente instalados na varanda da mansão no Lago Sul, quando Cristiano revelou a intenção de batizar o filho, que estava a caminho, de Cristiano Rodrigues Costa Filho. Carolina, que estava sentada ao lado da sogra, protestou.

— De jeito nenhum, meu bem!

— E por que não, Carolina? Por acaso não gosta do nome do meu filho?

— Dona Lia, a senhora bem sabe que acho Cristiano um nome lindo.

— Então, amor, por que não colocamos o meu nome no nosso filho?

— Faremos isso no segundo, mas não no primogênito.

— E qual será o nome, Carolina?

— Dona Lia, se a senhora me permite, quero que seja Sandoval. Além de muito bonito, é nome de presença.

Dona Lia ficou emocionada, abraçou a nora e, em seguida, pousou a mão sobre o ventre que carregava seu neto. A partir daquele dia, Carolina ganhou definitivamente o coração da sogra. É que Sandoval era o nome do pai, já falecido, de dona Lia.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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