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Fricotes e siricuticos

Os filhos sem pai que padre Klaus excomungou

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Encrustado no Nordeste de Portugal, Trás os Montes, não concebeu apenas Aristarco Pederneira, meu avô paterno, para o mundo pirotécnico de minhas histórias. Supostamente terra de Bocage, de Pedro Álvares Cabral e de Pero Vara com a Minha, contam os mais antigos que, de vez em sempre, a cidade aparecia nos jornais da capital como geradora de um fato novo. Uma certa época do século passado chegou para comandar a igreja matriz um sacerdote importado da Alemanha. Ajudado pelos coroinhas locais, levou tempo para que o pároco Klaus Friedenreich começasse a arranhar o português lusitano.

E toda vez que ele pronunciava uma palavra puxando pelo erre, esquecendo os esses, invertendo uma vogal ou acrescentando uma consoante era chamado atenção pelos meninos.  As variadas confusões na praça da igreja obrigaram padre Klaus a migrar para o Brasil e a se matricular com urgência em uma escola de língua. Uma noite, recolhido ao confessionário, o religioso foi chamado às pressas para a praça, onde um dos coroinhas gritava para o pároco “acuda minha mãe, acuda minha mãe, acuda mamãe”.

Antes de saber do que se tratava e lembrando das reprimendas que sofria quando errava no linguajar, o loquaz religioso tratou de corrigir o menino: “Não é acuda mamãe, menino. É o .. da mamãe”.  Foi imediatamente repreendido por uma beata, mas só percebeu a gravidade do que havia pronunciado publicamente quando concluiu o curso, seis meses depois. Não sei se os amigos ainda lembram do passamento do seu Pinto lá no subúrbio do meu, do seu, do nosso Rio de Janeiro.

Pois bem. A pedido de dona Pinta, foi o padre Klaus quem encomendou a alma do Pinto pecador. O mesmo representante de Deus aqui na terra ajudou a conter a viúva em um daqueles fricotes de siricutico, aflorado justamente no momento em que o corpo do santo homem cansado da dita dura baixava à sepultura. Louca de saudades de cima abaixo, dona Pinta caiu em si e, por pouco, não ocorreu ali mesmo um ato pra lá de cabuloso, mas necrologicamente pecaminoso.

Com apoio de um bando de carpideiras (algumas com pinta de que já haviam provado do Pinto), dom Klaus Friedenreich conseguiu conter a ensandecida viúva. Antes que algum desavisado resolva confundir prostitutas e carpideiras com políticos, devo registrar que as primeiras são mães zelosas e as segundas moças de família pagas para chorar em velórios. Embora sejam filhos de ambas, os políticos nem sempre conseguem se livrar daquele apelido medonho de bons filhos…da mãe. Dizem que, desde sua chegada ao Brasil, padre Klaus nunca aceitou batizar um desses filhos sem mãe definida.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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