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Vozes da Literatura

Os pilares da escrita de Elaine dos Santos

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

O despertar literário da escritora e ensaísta Elaine dos Santos remonta aos oito anos de idade, quando sua primeira “composição” escolar foi dissecada e elogiada, marcando o início de uma relação vital com a palavra escrita. Embora a vida tenha exigido o pragmatismo do trabalho formal, a paixão pelos livros seguiu inabalável e se consolidou em uma carreira acadêmica e docente de duas décadas na área de Letras. Como pesquisadora financiada pelo CNPq, sua escrita amadureceu entre resumos, fichamentos e orientações, desaguando em uma vasta produção profissional de 39 artigos científicos qualificados, teses e dissertações, que pavimentaram seu caminho natural rumo à literatura autoral.

Nesta entrevista exclusiva para Vozes da Literatura, a professora aposentada e especialista em Sociologia da Literatura compartilha as nuances de seu processo criativo, revelando sua preferência clara pela crônica devido à agilidade do formato e à necessidade de correção linguística para tratar de temas cotidianos. Ao analisar a literatura sob a ótica da Estética da Recepção, Elaine reflete sobre a mimese aristotélica, o diálogo necessário entre clássicos como Graciliano Ramos e Itamar Vieira Júnior nas salas de aula, e o papel dos jornais independentes como pontes de resistência e debate em um país que ainda lê pouco. Acompanhe a entrevista na íntegra.

Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, você reconhece como decisivo em sua trajetória? O que o levou a tornar seus textos públicos?

A primeira lembrança sobre a escrita de textos remete-me à segunda série primária, quando a nossa professora nos levou para ler as nossas “composições” (hoje, denominadas redações) para os alunos da quarta série. Lemos – eu e mais duas colegas – e a professora da turma de quarta série decidiu esmiuçar justamente o meu texto (talvez, tenha feito processo semelhante com os demais textos, mas foi marcante o fato de ela ter analisado com relativo detalhamento o texto que uma menina, então, com oito anos escrevera: eu).

É preciso reconhecer o esforço da nossa professora de primeira e segunda séries, a dona Neli Rubin (in memoriam), lia, contava histórias, pedia-nos para desenhar, para escrever, para contar, para encenar as histórias que contava. O seu incentivo foi fundamental. Sou-lhe muito grata.

O tempo passou e a vida cobrou trabalho formal. Ainda assim, sempre fui uma leitora voraz. Finalmente, veio a Faculdade de Letras, em 1992, e a dificuldade para escrever. Costumo dizer que os meus textos pareciam estar com soluço. Era uma frase e um ponto, mais uma frase e mais um ponto. Foram alguns semestres de exercício constante.

Como bolsista do Programa de Bolsas de Iniciação Científica do CNPq, passei a ser também pesquisadora: ler, resumir, fazer fichamento. Os textos que entregava para o meu orientador costumavam voltar “bordados” com caneta vermelha e inúmeros questionamentos. Eles exigiam novas leituras, novas escritas.

Houve uma ocasião, porém, que o texto, um resumo expandido, foi liberado para apresentação em uma mostra de iniciação científica. De lá para cá, foram 39 artigos científicos publicados em revistas com qualificação Qualis pelo CNPq, uma grande quantidade de resumos expandidos, um incontável número de resumos, uma dissertação, uma tese. A publicização dos meus textos foi decorrência da minha atividade profissional.

Nessa mesma esteira, vieram crônicas para jornais, para antologias.

“Considero a poesia extremamente subjetiva”

Entre conto, crônica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual gênero você encontra maior liberdade e precisão para dizer o que deseja? Por quê?

Atuei como professora de Literatura durante 20 anos, considero a poesia extremamente subjetiva, é a expressão de um “eu” em determinado momento da sua existência, que o faz em uma língua, a portuguesa, que é extremamente polissêmica (com palavras que variam muito de sentido). Não sei me expressar em versos.

Pela minha formação acadêmica, tenho facilidade para produzir artigos e ensaios, de cunho acadêmico ou não, mas a crônica, enfocando os temas do cotidiano, da sociedade, da existência humana, é a minha preferida.

A crônica não é um texto longo, não demanda erudição, mas correção linguística é fundamental, e trata normalmente de temas que estão em discussão na sociedade, creio que, por isso, a minha preferência. A minha área de atuação sempre foi a Sociologia da Literatura, as relações entre obra e sociedade, entre sociedade e leitor.

Quais são as fontes mais recorrentes de sua escrita: experiências pessoais, observação do cotidiano, memória, leitura de outros autores, pesquisa, diálogo com outras artes ou algo diferente?

Eu creio que nunca me interessei pela produção de contos ou romances, porque eu sou muito inspiração. Sou aquela pessoa que senta diante do computador e escreve, pautada pelas circunstâncias, pela propositura do tema (no caso de antologias) e isso faz com que recorra à memória familiar, à memória da minha comunidade – os meus estudos de mestrado e doutorado foram calcados na memória coletiva, gosto do assunto. Também gosto muito do diálogo com a mitologia grega, com os clássicos da literatura universal, particularmente, as grandes epopeias (Ilíada, de Homero, é a minha preferida!)

Que condições de trabalho sustentam a sua produção literária? Você depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de estímulos mais circunstanciais?

Quando eu lecionava e orientava monografias de conclusão de curso, eu costumava dizer para os meus alunos, se o cursor começar a piscar ameaçadoramente diante de vocês na tela do computador, desistam. É preciso ler mais, estudar mais, refletir mais. No meu caso, no período de mestrado (1999-2001), o cursor era “aterrador”, hoje em dia, temos um bom relacionamento, mas, conforme já referi, a minha preferência é a escrita de crônica. Deixo-a maturar alguns dias no pensamento, quando sento para escrever, ela já está mais ou menos pronta, basta digitar e revisar.

Quando trabalha com ficção narrativa, como você descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde? Em que momento percebe que ela se tornou suficientemente complexa para sustentar a história?

Não se aplica.

Como funciona a revisão no seu processo? O que costuma mudar de modo decisivo entre a primeira versão de um texto e aquela que você considera publicável?

Nas crônicas, que são os meus textos preferenciais, faço alguns ajustes de linguagem, de vocabulário. No caso de artigos ou ensaios, faço revisão de conteúdo, de bibliografia. Uma das minhas professoras no mestrado costumava dizer que é preciso “deixar o texto dormir”, ou seja, escrever e deixá-lo na gaveta por um ou dois dias. Na sequência, revisar, fazer ajustes de linguagem ou eventuais acréscimos. Há um teórico de Literatura, Hans Robert Jauss, que, em 1967, lançou a corrente crítica da Estética da Recepção. Para ele, quando publicamos um texto, ele deixa de ser nosso, pertence inteiramente ao leitor, aos limites de interpretação do leitor, às experiências anteriores de leitura daquele que se debruça sobre o nosso texto. Na prática, seria como criar um filho e entregá-lo ao mundo.

O que a publicação no Jornal Cultural ROL alterou — ou confirmou — em sua relação com a escrita, com os leitores e com outros autores de língua portuguesa?

A minha escrita para o Jornal Cultural ROL sempre procurou focar a Literatura e as suas relações com a sociedade. Tenho uma forte tendência a instigar o leitor a voltar-se para a leitura de textos da literatura já consagrada em autores como Graciliano Ramos, Erico Verissimo. Entre Vidas secas, de Graciliano Ramos, por exemplo, e Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, há um profícuo diálogo a ser explorado, discutido, levado para a sala de aula. Porém, nem sempre sinto a compreensão e a resposta a esse propósito, por isso, por vezes, procuro mudar o enfoque, abordar temas cotidianos, questões candentes em nossa sociedade e, nestes casos, a Literatura entra como exemplo, entendida aqui como reapresentação do mundo real (aquela questão da mimese que está em Aristóteles).

“Tenho tentado adequar-me a temas presentes, que digam respeito à sociedade contemporânea”

Há algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado sua percepção sobre um texto, sobre o público ou sobre a função daquilo que escreve?

Conforme mencionei antes, tenho tentado adequar-me a temas presentes, que digam respeito à sociedade contemporânea. Estudei, por muito tempo, a figura da mulher na sociedade de todos os tempos e, como agora, vivemos essa violência contra o feminino, busco exemplos históricos, discussões filosóficos para embasar um certo senso comum, que nos faz pensar, como sociedade, o que está posto e propor a mudança.

Na prática, o que os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possível para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remuneração continuam presentes?

Na condição de professora aposentada, mas que permanece apaixonada pela Literatura, eles têm propiciado algum diálogo com autores independentes, com acadêmicos de Letras, com professores de Língua Portuguesa, troca de ideias. Do ponto de vista financeiro, não existe retorno e não creio que haja para a maioria dos que escrevem. No Brasil, as pessoas leem menos.

Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no Café Literário/Notibras: que diferenças você percebe entre esses públicos e entre as formas de recepção dos textos em cada veículo?

Dias atrás, o atendente da mercearia me disse que a professora dele dava um “prêmio” para o aluno que errasse mais questões em uma prova ou trabalho individual. Evidentemente, ele riu matreiramente e completou: “Hoje em dia, as pessoas não aceitam críticas, elas têm as suas verdades e não querem abrir mão delas”. Eu ri também. Vivemos um tempo em que os indivíduos nos explicam os motivos pelos quais estão certos e não aceitam questionamentos. Escrever para um público abrangente nem sempre é ser totalmente aceito, conseguir um diálogo amplo, ainda assim, é manter-se em diálogo ou aberto ao diálogo.

Que sentido há em manter ficção, poesia e crítica cultural dentro de um portal jornalístico marcado pelo fluxo das notícias? Essa convivência altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?

Havia um livro didático de Literatura para ensino médio que trazia dois exemplos de linguagem, a denotativa, que predomina no jornal, por exemplo, e a conotativa, comumente usada pela poesia. O assunto era o mesmo, mas o enfoque era diferente. Acredito que ludicidade seja necessária. Um olhar diferente sobre esse mundo conturbado é necessário. Olhar para pássaros, crianças, cães, gatos não se restringe aos vídeos curtos de redes sociais, mas deveria ser vivência plena e, se não o for, que seja pela palavra, pelo emaranhado de sentimentos que a palavra produz. Sem alienação, claro! Não se deve esquecer a crueza do mundo, mas encontrar a suavidade de alguns momentos.

Qual é, hoje, o obstáculo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estratégia tem funcionado — e qual você considera superestimada?

Quando lancei um livro de crônicas, presenteei 20 amigos. Apenas dois deles deram-me retorno efetivo. Uma leitora chegou a fazer uma resenha e escreveu fragmentos de texto que estabeleciam uma “conversa” com os meus textos. O segundo relacionou a leitura com a minha história de vida. De resto, a informação era: “Li o teu livro” e eu não ousava perguntar: “O que te pareceu?” Se eu tivesse a fórmula mágica, eu adoraria compartilhar.

Ao imaginar alguém lendo sua obra, que tipo de experiência você espera provocar? Há efeitos que você deliberadamente evita buscar no leitor?

Nem imagino o que esperaria provocar no leitor. Não tenho um leitor bem delineado, porque cada pessoa é uma pessoa, com suas experiências de vida, com os seus medos, as suas dúvidas, as suas angústias, as suas esperanças. Por vezes, eu tenho forte tendência ao barroquismo, a certeza da passagem do tempo, a ideia da morte e isso não se coaduna com a sociedade atual, a sociedade do glamour, da imagem perfeita, da juventude, talvez evitasse tal choque, acredito que cada coisa a seu tempo: é preciso viver para aprender, sentir.

Há um projeto em curso — livro, coletânea, pesquisa, novo gênero, revista, oficina ou outra iniciativa — que ajude a compreender o momento atual de sua escrita?

Centrei, já faz algum tempo, os meus esforços de pesquisa na História do meu município. Há um livro publicado em 1983 que é o último registro oficial que temos e, de lá para cá, muita história oficiosa apareceu. Com os recursos disponíveis on-line para pesquisa, já ampliei bastante os registros, valendo-me de Arquivos Históricos, com material digitalizado.

Que prática, escolha ou disciplina você recomendaria a quem começa a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita você considera insuficiente ou enganoso?

Eu trabalhei como orientadora de alunos de graduação em seus trabalhos finais e sempre lhes disse: “Leiam muito antes de começar a escrever!” Isso me lembra uma professora de português da escola de ensino médio em que trabalhei: “Escrevam uma versão, duas versões, dez versões de um mesmo texto e vão colocando no lixo. A partir da décima versão comecem o polimento, melhorem construção frasal, vocabulário etc.

Resumiria isso a um conselho do professor Clóvis Barros: “Tenha brio”. Desafie-se. Escreva, jogue fora, reescreva. Leia bons autores, aqueles já consagrados, como eles resolveram certas questões.

Aliás, esse costuma ser o conselho para quem está começando no universo da escrita científica: leia autores que já tematizaram o assunto que lhe agrada tratar, que lhe instiga e veja o andamento, o raciocínio adotado. Comece a pensar a partir dali.

Que pergunta sobre sua escrita ou sobre a literatura contemporânea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda não apareceu?

Creio que as questões foram bem abrangentes, conseguiram que fossem tratados diferentes aspectos daquilo que me guia como “escrevinhadora” de textos.

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Elaine dos Santos nasceu em Restinga Seca, região central do Rio Grande do Sul. É licenciada em Letras, Língua Portuguesa e respectivas literaturas (1997); Mestre e Doutora em Estudos Literários pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), respectivamente, concluídos em 2001 e 2013. Possui experiência docente no ensino médio, graduação e pós-graduação, atuando, preferencialmente, na disciplina de Literatura, abrangendo a Literatura produzida no Rio Grande do Sul, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. É autora do livro Entre lágrimas e risos: as representações do melodrama no teatro mambembe (2019), adaptação de sua tese de doutorado, e Coisas minhas Outras histórias (2025), coletânea de crônicas de tom memorialista. Nos últimos anos, tem se dedicado, principalmente, às pesquisas sobre a História oficial de seu município de nascimento.

Instagram: @profe.elainerevisoradetextos

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