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Durvalino e Heládio

Os roteiristas sem futuro

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Durvalino e Heládio preferiam a corda bamba à estabilidade de um emprego em alguma repartição pública ou no Banco do Brasil. Por conta disso, os tempos de vacas magras eram quase perenes, caso não fosse por um ganho aqui, outro ali, que, em vez de fazerem os sujeitos firmarem os pés no chão, pior, eram motivos para manter aquelas mentes nas nuvens.

Roteiristas de cinema, os dois jamais conseguiram vender suas ideias para um produtor ou um diretor. O teatro era algo mais palpável e, vez ou outra, emplacavam uma peça, a maioria encenada ao ar livre. Não havia ingressos e, por isso, o chapéu corria para colher os parcos níqueis, que mal davam para o café e o pão na chapa. Dessa forma, precisavam dar seus pulos para não morrerem de fome.

Durvalino, década e meia mais jovem, era o mais ajuizado da dupla. Não que fosse um poço de responsabilidade, mas estava longe de ser doidivanas que nem o companheiro. Da mãe, herdara a candura e o apetite; do pai, nada além das dívidas e sonhos.

Heládio, aos que não o conheciam, até poderia passar por alguém com a sanidade intacta. Todavia, bastavam alguns minutos para que constatassem que se tratava de um caso perdido. Sorriso franco até demais, olhos oblíquos que pareciam buscar algo além da vista da maioria. As ideias mais esdrúxulas saíam da sua mente descontrolada e, pasmem, encontravam respaldo no Durvalino, que não se contentava em apenas acenar positivamente com a cabeça.

— Heládio, tu é um gênio!

— Tu acha mesmo?

— E isso importa?

E assim nasciam os enredos, por mais sem pé nem cabeça que fossem, da dupla. Entre tantos, houve o improvável caso da abóbora apaixonada por um melão. Mas eis que, por mais doida que fosse a história, essa até deu caldo. Foi um relativo sucesso, ainda mais se levarmos em conta os inúmeros fracassos de moedas depositados no chapéu das peças anteriores. Sem mencionar que rolou mesmo um clima entre os atores, Ludmila/abóbora e João Carlos/melão. Não chegaram a se casar, mas o romance foi inspiração para Durvalino e Heládio para outros roteiros.

— Heládio, tu sabia que o sobrenome do João Carlos é Cordeiro?

— Não sabia. E o que tem isso?

— Não teria nada se o sobrenome da Ludmila não fosse Lobo.

— Tu tá de brincadeira!

— Tô não!

A nova trama envolveria uma loba gamada por um cordeiro. E tudo parecia se encaminhar para mais um sucesso de chapéu repleto do vil metal, mas o projeto não prosperou. Não por causa do roteiro, que não era dos piores. No caso em questão, foi incompatibilidade dos artistas, já que Ludmila havia se envolvido com Lúcio Raposo, enquanto João Carlos andava de asa caída para o lado de uma tal Camila, que era Pinto.

— Heládio, creio que desse mato não sai coelho.

— Pois é, Durvalino… Se bem que quem não tem cachorro caça com gato.

Dizem que, até hoje, as ideias não param de chegar, por mais absurdas que sejam. Seja como for, Durvalino não descarta a parceria, e nem é por causa da amizade, que vez ou outra fica abalada. A questão é outra, como ele adora dizer: “A gente ganha quase nada, é verdade, mas se diverte pra caramba!”

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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