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Cisma e Resistência

Padre da Ceilândia rejeita excomunhão do Vaticano e mantém atividades

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação

O cenário religioso do Distrito Federal tornou-se o epicentro de uma grave disputa teológica e jurídica internacional. O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, responsável pela Capela Santo Atanásio, localizada em Ceilândia, rejeitou publicamente a excomunhão confirmada pela Arquidiocese de Brasília. O sacerdote declarou que a punição eclesiástica emitida pela Santa Sé é inválida e garantiu que continuará celebrando as missas diárias normalmente no templo da capital federal.

A penalidade máxima da Igreja Católica foi aplicada após o padre e a comunidade da capela declararem adesão formal à Fraternidade Sacerdotal São Pio X. O grupo reúne católicos ultraconservadores e tradicionalistas que decidiram desafiar as diretrizes do papa Leão XIV. De acordo com o decreto do Vaticano, todos os sacerdotes e fiéis leigos que manifestarem apoio ou filiação oficial à organização encontram-se agora em estado de excomunhão.

O Vaticano classificou a situação da Fraternidade São Pio X como um “cisma”, termo teológico utilizado para indicar uma ruptura formal, grave e definitiva no seio da comunidade católica romana. Diante da gravidade da situação regional, a Arquidiocese de Brasília emitiu uma orientação oficial direcionada aos católicos locais. O comunicado adverte que todas as celebrações, atos pastorais e formações promovidos na capela de Ceilândia são irregulares e devem ser terminantemente evitados pelos fiéis devido ao risco de adesão ao cisma.

Por meio de pronunciamentos gravados em suas redes sociais, o padre Françoá Rodrigues rebateu as determinações da Santa Sé, classificando-as como juridicamente nulas. O sacerdote argumentou que ele e seus seguidores mantêm a identidade católica intacta e que não deixarão de rezar pelo Papa e pelo arcebispo de Brasília durante o cânon das missas. As declarações foram veiculadas em um vídeo publicado no último sábado, intitulado pelo religioso como “Resposta aos inimigos”.

O sacerdote também afirmou estar ciente do teor da nota oficial de alerta publicada pela Arquidiocese de Brasília e adiantou que pretende responder ao documento à altura. Em suas gravações, Françoá Rodrigues rejeitou categoricamente o rótulo de cismático para a Fraternidade São Pio X. Ele ponderou que, embora o grupo tenha praticado uma desobediência grave e forte contra o Sumo Pontífice, a quebra de uma ordem papal não pode ser igualada a uma ruptura total com a Igreja.

O estopim para a nova crise internacional ocorreu após a fraternidade ordenar quatro bispos sem a autorização obrigatória da Santa Sé, em uma cerimônia realizada em Écône, na Suíça. O Vaticano interpretou o evento europeu como um ato abertamente cismático. Além de excomungar os novos bispos, Roma emitiu um alerta global avisando que os sacramentos da fraternidade agora são ilícitos, o que invalida confissões e casamentos perante as leis canônicas.

Historicamente, a Fraternidade São Pio X atua na defesa ferrenha das tradições litúrgicas anteriores às reformas do Concílio Vaticano II, adotadas pela Igreja Católica há mais de 60 anos. O grupo tem como principais bandeiras o retorno obrigatório das missas celebradas em latim e a condução do rito com o sacerdote posicionado de costas para os fiéis, voltado diretamente para o altar. Os tradicionalistas rejeitam as atualizações pastorais e litúrgicas promovidas pelas autoridades romanas nas últimas décadas.

Em um posicionamento ainda mais incisivo, gravado anteriormente em um vídeo intitulado “NÃO estamos excomungados”, o padre de Ceilândia garantiu que a Capela Santo Atanásio não recuará diante de ameaças. O sacerdote disparou duras críticas à atual administração da Igreja Católica, classificando a estrutura vigente como uma “Igreja sinodal, conciliar e falsa religião”. Segundo o religioso, essa vertente atua como um parasita que sufoca inclusive as mais altas autoridades da instituição em Roma.

O conflito institucional entre o Vaticano e a Fraternidade São Pio X estende-se por décadas e repete um enredo de rupturas ocorridas no final do século passado. Em 1988, o fundador da organização tradicionalista, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, também realizou a ordenação ilícita de quatro bispos sem o consentimento do papa João Paulo II. Naquela ocasião, todos os clérigos envolvidos no ato foram severamente excomungados pela Santa Sé.

Duas décadas mais tarde, em 2009, o papa Bento XVI revogou os decretos de excomunhão dos bispos em uma tentativa de promover a paz e a reaproximação teológica entre as partes. Apesar do esforço diplomático do pontífice alemão, as negociações bilaterais não prosperaram integralmente, e a situação canônica e jurídica da fraternidade permaneceu em caráter irregular perante as leis de Roma.

A atual crise ganha contornos de maior gravidade à medida que a liderança da fraternidade insiste que as novas ordenações na Suíça foram atos de necessidade para assegurar a sobrevivência de suas atividades e ritos ao redor do mundo. Em Ceilândia, o padre Françoá Rodrigues mantém a postura de enfrentamento aberto e desafiou os membros da capela que não concordam com a linha adotada a deixarem o local, declarando que o momento exige disposição para sofrer pela verdadeira fé.

O impasse no Distrito Federal permanece sem previsão de conciliação, dividindo opiniões entre moradores e frequentadores da região administrativa. Enquanto a Arquidiocese de Brasília reforça o cerco institucional para isolar o templo cismático e proteger a unidade paroquial, a Capela Santo Atanásio solidifica seu posicionamento de resistência, transformando Ceilândia em uma trincheira do tradicionalismo católico no Brasil.

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