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Estímulo

Pam pam pam

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Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Aos 18 anos, Guilherme, o Gui, era meio Nova Era. Certa vez, quando ia transar com a namorada, vieram-lhe à cabeça três palavrinhas – uma onomatopeia, na verdade. Repetiu-as mentalmente e partiu para a ação. Foi uma delícia, melhor que o habitual, e ele se convenceu de que o universo estava lhe dando uma forcinha, para nunca, jamais, em tempo algum desapontar as damas. O fato de ter 18 anos, com os hormônios a mil, foi convenientemente esquecido.

Dias depois, ele e três amigos foram acampar com as namoradas. Quatro casais, quatro barracas próximas umas das outras – privacidade mínima. Na manhã seguinte, um amigo, o Juca, perguntou a Gui.

– Mermão, que pam pam pam foi aquele que você gritou de noite?

Meio sem graça, Gui contou sobre o código de ereção que o cosmos lhe enviara. Juca fitou-o, incrédulo.

– Tu enlouqueceu, cara? Temos 18 anos, nessa idade, estamos na ponta dos cascos, como o diabo gosta. E as gatas também…

– Não custa fazer – replicou o novaerista.

– É verdade, custar não custa –admitiu Juca.

Naquela mesma noite, ressoou nas quatro barracas uma sinfonia de pam pam pans. Não era bem o Concerto para Percussão e Pequena Orquestra, do francês Darius Milhaud, composto em 1929-1930, mas chegava bem perto.

As meninas ficaram intrigadas, e pressionaram os parceiros até eles revelarem que diabos era aquilo. Logo em seguida, trataram de adaptar o código para comentar entre si sobre as pancadas de chuva em suas respectivas hortas (ô bicho pra ter nome). Funcionava assim:

– Pam… pam pam pam – quatro precipitações, uau!

– Paam paam! – duas, mas prolongadas e sem dúvida prazerosas.

– Pam pam pam – sem interjeição de prazer ou espanto, a maioria das vezes eram três, nessa idade é perfeitamente normal.

– Pam! – uma interjeição indignada, prelúdio para um pensamento rancoroso: “Esse traidor fio de uma égua deve estar saindo com alguma periguete, por isso deu só umazinha comigo. Mas me vingo, vou encher ele de chifres!”

Não se sabe qual moçoila contou à mãe sobre a versão feminina do código pam pam pam. Esta revelou às amigas de confiança, pedindo segredo absoluto e, claro, a coisa se espalhou como fogo no cerrado. Aquele trecho da cidade virou o palco do concerto de Darius Milhaud. Mas, pobres senhoras, a sinfonia onomatopaica era muitas vezes interrompida por uma série de comentários exasperados:

– Pa… – seu traste, nem terminou o primeiro pam! Não sabe manejar a baqueta? Cê nunca foi muito bom no fuzuê; mas agora, seu inútil, desaprendeu tudinho?

– Pam… – um pam só? Cachorro sem vergonha, com certeza, com sua amante você faz pam pam pam. Quero o divórcio!!

Apenas umas poucas, confiantes no desempenho dos parceiros, ousavam pedir, aos berros, uma intensificação do ritmo, do repique.

– Repica, meu macho, repica!

Pressurosos, eles atendiam, dentro do velho esquema “onde bate, fica”.

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