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Cacofonia poética

Para o brasileiro com fé de menos, o triunfo deu-se e é irreversível

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Leitor e telespectador assíduo dos velhos e culturais gibis e séries dos anos 60, me deliciava com as antagônicas histórias das famílias Flintstones e Jetsons. A primeira parecia uma típica parentela daquela década de ouro, mas suas aventuras eram totalmente ambientadas na Idade da Pedra. O segundo grupo vivia em um futurístico universo automatizado, inclusive com serviçais robôs, cidades suspensas, carros voadores e viagens espaciais. Criadas por Joseph Barbera e William Hanna, a famosa dupla Hanna-Barbera, as duas famílias nem de longe lembravam alguma coisa que eu pudesse ter vivido, muito menos que um dia poderia viver.

Como também aprendi que, para prever o futuro, temos de estudar o passado, cá estou cada vez mais consciente de que o tempo não para. Por isso, sempre estou pensando no que virá. Os dias viraram noites, as semanas se transformaram em meses e os anos acabaram velhos. Entre a certeza de que valeu a pena acreditar na beleza dos sonhos, às vezes bate aquela dúvida sobre o que ainda virá. A verdade é que mudou o mundo, as pessoas e, sobretudo, a convivência humana. Embora quase nada me surpreenda mais nesta quadra da vida, normalmente percebo perguntas e respostas se contradizendo antes mesmo de serem feitas. Por isso, apesar de inevitável, procuro não fazê-las.

O futuro é um mistério. Já a vida é aquilo que acontece enquanto planejamos o futuro. Ele chega muito rápido. Daí, tento apenas torcer pelo melhor. Só me assusto com algumas modernidades que jamais imaginei alcançar. Por exemplo, como nunca usei o manto da imagem de Cristo como guardanapo, fico pensativo quando vejo padres progressistas colocando limão e açúcar na borda dos cálices sagrados. Pior é assistir à molecada da missa das dez confundindo a hóstia com chicletes de bola, a “casinha” do celebrante auxiliar com banheiro e achando que, por ter nascido em Belém, Jesus Cristo é paraense.

Enfim, as coisas vêm e vão. O ideal é esperar por elas. Triste é o homem inferior achar que o poder absoluto não muda de mãos. Emblemático e divisor de água para os que previam um futuro conservador, tirânico e mitologicamente fardado, o ano de 2022 provou que o tempo é um escultor de ruínas. Será que alguém com os exames psiquiátricos em dia acordou naquele 30 de outubro acreditando na vitória de Luiz Inácio? Será que algum brasileiro dormiu na noite de 7 de janeiro de 2023 sem a certeza do golpe? Duvido. Nem Xandão conseguiu essa proeza. E o 8 de janeiro? Certamente poucos imaginaram ver o que viram não fosse em uma das novas séries romanescamente violentas da GNT, um dos canais do grupo Globo.

O lado bom do futuro que ninguém previu começou a ocorrer uma semana antes do levante financiado pelos bolsonaristas enviuvados, mais precisamente no primeiro dia de 2023. Naquele domingo ensolarado e de festa nacional, alguém imaginou o arcabouço fiscal e a reforma tributária quase aprovados integralmente pelo Congresso Nacional? E Bolsonaro inelegível? Acho que nem aqueles que dormem e acordam com a sensação de que tudo na vida é possível acreditariam que, em apenas seis meses, Lula conseguiria reverter uma situação de quase esquecimento global. Voltamos à crista da onda. Hoje temos vez e voz nas principais mesas do planeta.

Como só aceito a cacofonia poética, lembro aos bárbaros tristes, derrotados e de pouca  que o triunfo deu-se e é irreversível. O Brasil de hoje está mais próximo do progressismo dos Jetsons do que da imbecilidade dos Flintstones da orla de Copacabana, dos clubes militares ou de parte do plenário da CPMI que investigará o Banco Master. Por razões óbvias, para o povo com fé de menos o futuro realmente é tenebroso. Como uma mão lava a outra, além do ostracismo para alguns e das celas escuras e frias das penitenciárias para a maioria, para outros sobrarão, quando muito, as casas de lenocínio de beira de estrada vicinal, nas quais as mulheres serão bonecas infláveis, a cerveja será sem álcool, o cigarro só eletrônico e a patriotada continuará imbrochavelmente à espera de um milagre em outubro próximo.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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