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COISANDO

PARTE 3 – OS SANTOS, AS ARMADURAS E O SILÊNCIO

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

“Há um que é só, e não tem segundo; […] contudo não cessam os seus olhos de se fartar de riquezas.”
Eclesiastes 4:8

Por falar em Nossa Senhora, ainda não contei sobre as imagens de santos da casa antiga. Uma coleção espetacular. Outra predileção de Dionísio, a arte sacra, naqueles tempos, era obrigatória nas mansões. Naquela não era diferente. E Dionísio tudo conhecia e controlava.

Imagem de Santa Eufêmia, mártir cristã dos primeiros tempos. Comprada do dono da Fazenda Queluz, de gesso e esmalte alemão, datada de 1877. Objeto de veneração por parte da avó de minha madrinha, a Baronesa da Boa Fé.
São Francisco de Assis vindo de Minas Gerais. Peça barroca em madeira, do século XVIII. Atribuída a Aleijadinho.
Nossa Senhora das Mercês com coroa de ouro e manto de fio de prata. Presidia às novenas na capela privada da fazenda, a partir de 1869, quando foi presenteada à família pelo Cônego Theodoro Francisco Januário.

E mais Santo Antônio, São Pedro, São Paulo, Nossas Senhoras, Senhor dos Passos…

Tudo anotado, descrito, desenhado, detalhado, ad perpetuam rei memoriam.

Dionísio não era propriamente um fiel, mas admirava a arte, a cara sofrida dos santos, os querubins de cabeça aparecendo entre as nuvens sob seus pés, os objetos que portavam para sua identificação ou exaltação de suas virtudes morais.

Estes santos dividiam um enorme salão no andar superior com uma estatuária vasta. Objetos de terracota, mármore, gesso ou mesmo pedra-sabão. Representavam musas, figuras lendárias, heróis antigos. Também orgulhava seu dono um par de armaduras completas de cavaleiros cruzados, autênticas, caríssimas, compradas numa época de muita riqueza. Como aquelas, nenhuma outra havia no Brasil.

O trabalho do dono da casa nunca acabava. Era necessário rever os livros, controlar os gastos, reunir numa contabilidade frenética todas as rendas expendidas e recebidas. Esta faina consumia muito do dia de Dionísio. Acordava cedo, fazia seu desjejum, passava em revista os cômodos da casa, o estado de suas instalações, verificava o que faltava ou sobrava na despensa, ralhava invariavelmente com as empregadas. Depois, recolhido ao escritório, dedicava-se a pouca correspondência, depois do que ia trabalhar no registro das coisas. Sempre Dionísio e suas coisas.

— Minhas coisas. Tudo meu. Ninguém porá a mão. Se eu recebi, eu cuido. Depois, quando me for, que resolvam. Mas, enquanto respirar, sou o curador disso tudo. Não, curador apenas, não. Dono. Dono e senhor. Tudo meu.”

Dionísio tinha seu mundo resumido à casa, aos objetos do seu interior. Cada dia menos reparava nas pessoas: não fosse para ralhar com as empregadas, sequer tomaria consciência da presença delas. Passou a evitar as visitas. Mesmo que fossem a oportunidade de discorrer longamente sobre as peças do seu acervo, começou a ter medo que lhe furtassem algo. Isso tudo começou depois da história do par de abotoaduras. Vou contar.

Houve uma recepção na cidade para o governador do Estado. Naqueles tempos, chamava-se “presidente”. Os figurões da política e economia locais foram chamados, e, embora um tanto ofuscado por sua história de vida, Dionísio não fora esquecido. Na oportunidade, saiu vestido com grande apuro, junto de sua esposa. O casal fez ótima figura. Mas o traje do herdeiro não estava completo. Faltou-lhe o par de abotoaduras que queria usar, mas não as achava em lugar nenhum em meio a uma coleção de uma dúzia de outras. Eram as de prata, incrustadas de pequenas pedrinhas, com um remate em madrepérola. Peças belas e raras. Quando deu pela falta, Dionísio consultou o livro.

Par de abotoaduras de prata, em excelente estado, quase sem uso. Foram usadas por meu avô paterno no Te Deum a que compareceu na capital do Império por ocasião do retorno de D. Pedro II de uma viagem à Europa. Depois, por meu pai em seu casamento. Usadas em outras ocasiões solenes. A última a 29 de maio de 1921 (casamento da filha mais velha do Conselheiro Motta). Desenho.

— Eram para estar aqui, com as outras abotoaduras de homem. Para onde foram?

Dionísio fez um escarcéu. Revirou a casa toda, suspeitou das empregadas, pensou que alguém pudesse haver afanado as joias quando as tivesse mostrado a alguém, embora não se recordasse de o fazer.

Enfim, não foram achadas as abotoaduras. Mesmo assim, foi à solenidade usando outras, de coral e ouro. Até mais valiosas, mais novas. Mas tomou a resolução. Dali em diante, menos gente circularia pela casa antiga.

— É muito entra e sai. Acabou isso. Aqui não é um lugar público.

E resolveu recontar, recatalogar e conferir de novo, minuciosamente, tudo que havia na casa.

Na indiferença que foi tomando às pessoas, com as quais cada dia menos queria contato, Antônia também foi sendo esquecida por seu marido. Ele nem se deu conta de uma doença que, discretamente, minava as forças da mulher a cada dia. O silêncio às refeições era enervante, mas despercebido. Ela não comentava mais nada, não rebatia reclamações do marido, não mais se fingia interessar por alguns raros assuntos trazidos à sala de jantar. Assim definhando, Antônia morreu ao cabo de um ano e meio.

Fosse em outra época, Dionísio ficaria abatido. Mas uma apatia completa se apoderara dele. As pessoas não significavam mais nada. O mundo exterior era uma ameaça. As empregadas, queria distantes, não fosse a eventual utilidade.

Aliás, com a falta da dona da casa, as três decidiram ir embora. Não tolerariam mais as estranhezas e broncas do patrão, embora estas fossem cada vez mais raras. Dionísio indicou, com um meneio de cabeça, que entendia o pedido de demissão.

— Queríamos apenas os dias trabalhados no mês, patrão. E a oportunidade de vir pegar nossas coisas nas dependências.

Outro meneio de cabeça e silêncio. Estava tudo selado.

Os tempos que sucederam à morte e enterro de Antônia ainda contaram com uma ou duas visitas das irmãs. Mas viram Dionísio tão distante e aéreo que preferiram se hospedar no Grande Hotel. Os sobrinhos estiveram ali também, mas evitaram falar com o tio dada a tamanha estranheza que seu estado mental os causou. Tomaram o trem de volta tão logo puderam, pois perceberam que nada além podiam fazer ali. Nem divertimento o velho tio dava mais.

Dali para frente, Dionísio estaria sozinho na casa. Porque visitas não admitia, dos parentes queria distância, e a única pessoa com quem realmente convivera nos últimos anos havia morrido. Mas Dionísio pouco se lembrava da mulher. Em pouco tempo, parecia haver esquecido completamente dela. Era estranho. Mesmo a enorme sepultura no cemitério municipal, ricamente ornada, onde a lápide de mármore era precisamente enriquecida com uma nova inscrição a cada sepultamento realizado, nenhuma menção fez a Antônia. Dionísio não tomou a iniciativa.

Uma ideia custou a passar pela cabeça do senhor daquela grande casa. Quem lhe faria comida? Quem arrumaria as coisas que sempre foram confiadas às funcionárias? Como seria a limpeza? Quem abasteceria a despensa?

— Eu me arranjo. Não preciso de ninguém. Melhor estar sozinho, pois todo mundo quer tomar minhas coisas. Não divido com ninguém, é tudo meu.

…………………
(continua amanhã no Café Literário)

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