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Calcutá

Pedregosa

Publicado

Autor/Imagem:
Luciana Assunção - Texto e Foto

Hoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá. Numa determinada pedra numa rua de Calcutá. Solta. Sozinha. Quem repara nela? Só eu, que nunca fui lá. Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento… Minha pedra de Calcutá!
(Mario Quintana)

Existe alguma explicação científica para que as pedras assumam, com certa frequência, o formato do coração?

Não, é só coincidência mesmo, respondeu desinteressado.

Agora você me lembrou a Adélia, que disse que tem dias que Deus lhe tira a poesia. Ela olha a pedra e vê a pedra mesmo.

Quero olhar a pedra e desvendar a sua natureza metafísica. Corações de pedra nos lembram que amar é mineral, tem peso e densidade que nos conduzem às profundezas. É uma natureza essencial. O artificial é o não amor.

Prefiro acreditar numa resposta cósmica para o que os olhos veem com certa constância.

Querem me dizer que resista como rocha às cicatrizes do afeto? Querem me impelir a esculpir poesias das entranhas, como Michelangelo: “Eu vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo.”?

Querem me mostrar que endureci? Enlouqueci?

Querem me lembrar que elas fazem parte do caminho, que não me desvie de sua áspera figura, da dor inevitável? Da solidão desta vida canhota?

Que eu siga com os bolsos cheios de pedras, mas não da angústia de Woolf ou das radioativas de Curie. Quero as pedrinhas de brilhantes, radiantes, para ver O Amor passar. Substantivo pedregoso, angular.

Hoje acordei Cora, escrevendo entre as pedras alguma poesia. Já plantei as minhas primeiras flores, então é hora de colher, sem incertezas, as pedras rústicas dos meus versos.

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Conheça o Blog Pisciana de Juba, da escritora Luciana Assunção: https://lulupisces.blogspot.com/

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