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O escritor

Pedro Cesarini, o (quase) notável

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Pedro Cesarini era um nome respeitável no meio literário. Sua capacidade de produzir contos e crônicas, publicados diariamente em certo veículo jornalístico de boa circulação, além de livros premiados, faziam-no aclamado não só pelo público, cada vez maior, como também pela crítica especializada. O sujeito estava no topo e havia quem afirmasse que, caso ele erguesse as mãos, certamente ralaria os dedos nas sandálias de São Pedro.

Exageros à parte, o escritor era a vedete da vez. Entretanto, algo começou a incomodá-lo: a falta de tempo para escrever algo realmente impactante, já que a exigência de apresentar um texto novo todos os dias não deixava espaço para se dedicar à produção de algo relevante. Passaria o resto dos seus dias destinado à mediocridade ou, o que era improvável, abandonaria aquela alegoria para, finalmente, escrever o romance que acreditava ser o divisor de águas na sua trajetória nas letras?

A trama estava praticamente desenhada na mente. Todavia, faltavam-lhe as horas necessárias para se debruçar sobre a máquina de escrever, cujo som das teclas fazia parte do processo de criação, e deixar que os dedos ágeis fizessem o que fosse preciso para abrolhar a obra da sua vida. E, quando decidiu que iniciaria o projeto naquele dia, eis que, já nas primeiras horas da manhã, percebeu inúmeras mensagens elogiosas sobre o novo conto publicado.

“Pedro, você se superou!”

“Que maravilha! Como você consegue ser tão genial assim?”

“Quando eu crescer, quero escrever que nem você.”

O ego, logicamente, o inebriava e, assim, bloqueava qualquer ímpeto de colocar o plano de se dedicar à produção de um livro de impacto, e não meras lisonjas, que logo eram esquecidas. E foi aí que Pedro, diante do espelho, tentou encontrar aquele escritor que, há muito, acreditou existir. Ou parava tudo para se concentrar numa escrita destacada ou, então, passaria o resto dos seus dias levando tapinhas nas costas, que salvariam seus dias, é verdade, mas que também o levariam para o abismo dos descartáveis das gerações futuras.

Tomado de coragem que não imaginava sua, Pedro teve uma conversa com o editor do jornal. Aproveitou que a porta estava entreaberta, esticou o pescoço e, com a voz mais afinada do que de costume, se fez notar.

— Oi, Pedro! Entre, por favor.

— Obrigado, Wenceslau.

— Diga!

Pedro, pego de surpresa por aquela abertura inesperada, travou.

— O gato comeu a sua língua?

— Não. É que…

— Hum?

As frases, antes ensaiadas mentalmente, evadiram-se.

— Bem, Wenceslau, eu só queria agradecer pela oportunidade que você me deu no jornal.

— Pedro, se os leitores te amam, nós do jornal também te amamos. Continue o seu trabalho, que está satisfatório.

— Obrigado.

— Algo mais?

— Ah, não. Era só isso mesmo. Obrigado.

— Ok. Feche a porta quando sair, por favor.

Satisfatório. Wenceslau definiu exatamente o que eram os contos e crônicas de Pedro. Até mesmo os textos que lhe pareciam de nível mais elevado eram encurtados pela brevidade das horas de entregá-los a tempo de serem publicados no dia seguinte. A roda precisava continuar girando.

Na calçada, Pedro observou o trânsito. Inúmeros automóveis, motocicletas, alguns ônibus. Por um instante, imaginou o impacto da lataria sobre suas carnes. Morreria na hora? Sentiria dor? Calculou a distância exata para ser atropelado por um ônibus, que vinha com velocidade mais do que suficiente para arremessá-lo a vários metros. Ossos quebrados, sangue escorrendo, miolos espalhados naquele asfalto sem vida. A multidão ao redor.

“Coitado!”

“Ele foi atravessar e não percebeu o ônibus.”

“Também, quem é que manda atravessar longe do sinal?”

“Esse trânsito não perdoa quem vacila,”

“Mais um que vai virar estatística,”

Uma mulher se aproximou e tocou-lhe o ombro.

— Pedro Cesarini? É você mesmo?

— Oi. Sim, sou eu.

— Nossa! Não acredito! Leio você todos os dias. Posso tirar uma foto com você?

— Sim, claro.

Após a fã se despedir, Pedro caminhou até o seu apartamento. Definitivamente, ele era desprovido de algo próprio dos grandes escritores: a coragem.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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