Gira mundo
Peter “Tocha”
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“As borboletas estão voando / A dança louca das borboletas…”
(Zé Ramalho e Alceu Valença, “A Dança das Borboletas”)
Salami vive pelas praias de SC entre Florianópolis e Garopaba.
Vai e volta e vai e volta…
“Riponga Rasta” desde que se conhece por gente.
Salami neste sábado arrumou grana e montou um churrasco na calçada da rua.
— Professor, churrasco democrático!
Parei, sentei a bunda velha na cadeira e o cão me atacou.
— Calma, Profe… É o Peter… o Peter “Tocha”.
Fiquei magnético por segundos e depois entendi.
Salami organizou um churrasco democrático saudando a chegada do décimo cachorro parceiro de rua dele: Peter… Não Tosh, mas “Tocha”.
Fiquei calmo e, depois de meia hora o “Tocha” já me lambia e fazia carinho em minhas pernas.
E Salami prosseguiu:
— Estimado, a coisa pegou legal neste Verão. Movimento bom e só alegria… Muita festa! Fiz o trecho todo: Ferrugem, praia do Rosa, Guardinha do Embaú, Pinheira e todas de Floripa. Trecheiro é trecheiro, bródi!
Salami é “riponga”, mas tem um smartphone de última geração. Com ele, o experiente “rasta” faz contato com toda a gente. E vende seus balangandãs, pulseiras e objetos de artesanato que produz durante os meses de inverno.
E o amigo celular é a caixa de som capaz de animar todas as horas com sons inacreditáveis, psicodelia pura na maioria das programações.
— Alceu, Zé Ramalho e “A Dança das Borboletas” é massa demais, cara!
Pergunto ao Salami sobre o reggae e ele é direto:
— Bob Marley, o “JÁH” e, claro, Peter Tosh. Sem os dois não há sobrevivência.
O “churrasco democrático” prossegue pela tarde nas areias da prainha do braço do rio da Madre, no coração da Guarda do Embaú SC. E a galera vai chegando; gente descolada de todo tipo. Churrasco democrático MESMO.
Cansado e já cheio de trago, despeço-me de Salami e da “galera feliz” para seguir em busca de descanso na pousada neste final de verão; não sem antes dar um abraço em “Tocha”, o Peter. Nisto, o cão fala comigo e sorri; não um sorriso qualquer: sorriso de quem conhece os segredos das praias e estradas desse mundão.
Peter dança sobre as patas traseiras e me oferece um cigarro artesanal imenso no que eu respondo:
— Grato, Peter, tô fora… Só segurando o meu câncer-futuro que o Marlboro garantirá.
A noite chega e ainda posso ver o Sol se escondendo atrás da Pedra do Urubu enquanto caminho pela Estrada Velha do Cumbatá ouvindo o som de Alceu e Zé Ramalho:
“As borboletas estão voando / A dança louca das borboletas…”
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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador. Vive na pequena vila da Guarda do Embaú, ao lado de Florianópolis, litoral de SC.