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Caso Master

PH vai depor de novo; pode ser novo feixe de lenha ou água no fogo

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto de Arquivo

Vem aí um depoimento que cria vibrações e supostas inquietações antes mesmo de acontecer. É que Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, está decidido a sentar-se de novo tête-à-tête com os investigadores do Caso Master. Não cabe especular o que será dito aos homens da Polícia Federal. Mas em Brasília, onde até o silêncio costuma ter assessoria, o ato de querer falar não é, por si só, simplesmente desejar acrescentar ou recuar do que já foi dito. O gesto é visto quase sempre como uma mensagem enviada sem envelope, lida antes mesmo de ser escrita.

A volta de PH à Polícia Federal para “esclarecer pontos” do caso que envolve o BRB e o Banco Master tem a elegância típica das frases cuidadosamente neutras. Esclarecer pontos é uma expressão curiosa, uma vez que pode significar tudo, inclusive nada. Mas, politicamente, significa muito.

Isso porque, no Distrito Federal, depoimentos não caminham sozinhos. Eles arrastam expectativas, rearranjam cautelas e fazem com que aliados passem a falar baixo. Não que se trate de discrição, mas de cálculo acústico. Nunca se sabe de que lado virá o eco.

A liturgia do retorno é um direito; às vezes, porém, é estratégia. No mundo jurídico, chama-se a isso complemento de informações. Já no campo político, é sinônimo de movimento. E movimentos, em Brasília, raramente são inocentes. São como peças de xadrez que fingem não saber que estão num tabuleiro.

Não se trata aqui de antecipar conteúdo, porque os autos seguem silenciosos, como convém às investigações que ainda respiram. Mas o gesto, por si só, já produz efeito. Reacende conversas interrompidas, revive prudências esquecidas e faz surgir aquela velha pergunta. Como me confidencia um interlocutor do entorno de Paulo Henrique, ele vai apenas explicar… ou vai contar?

Pergunta injusta, claro. Porém irresistível, principalmente quando circula em corredores acarpetados, onde também pode ser visto o fantasma da palavra “colaboração”. Vale registrar, dentro desse contexto, que toda vez que alguém deseja falar novamente com investigadores, surge nos bastidores um termo que ninguém pronuncia em voz alta, mas todos soletram mentalmente. É a tal da delação premiada.

‘Colaboração’, pode-se dizer, é algo que se assemelha a nuvem de verão, que pode chover ou pode apenas ameaçar. E, como toda nuvem política, sua força está menos na água que carrega e mais na sombra que projeta.

Particularmente, com base no que ouvi de interlocutores comuns, PH não está propenso a uma delação. Mas não se pode esquivar do fato de que a legislação é clara, os requisitos são objetivos, os ritos são formais. Diferentemente da política, onde a preferência é trabalhar com pressentimentos.

Por isso, antes mesmo de existir qualquer acordo, já existe narrativa. Antes da prova, já existe versão. Antes do fato, já existe análise “em off”. Esse é um talento natural de Brasília, onde costumam antecipar consequências de coisas que talvez nunca aconteçam.

O certo é que o episódio BRB-Master deixou de ser apenas um assunto financeiro faz tempo. Bancos públicos, por definição, guardam dinheiro e simbolismos. Quando entram em investigação, o cofre que se abre não é só contábil, mas institucional. Daí o cuidado com toda a coreografia que passou a cercar o tema. É verdade que ninguém quer ser protagonista de uma história cujo final ainda não foi escrito, embora todos queiram garantir que, quando for chegado o momento do epilogo, não estejam na página errada.

Enquanto isso, a política local observa com sua conhecida serenidade ansiosa. Reina uma calma aparente que soa como quem espera o elevador chegar sabendo que alguém importante está lá dentro. Nessas ocasiões, chega-se a sentir o peso das palavras que ainda não foram ditas. Ou talvez, no fim, o novo depoimento diga pouco.

Paulo Henrique pode, quem sabe, apenas esclarecer rotinas, detalhar procedimentos, confirmar versões já conhecidas. Um depoimento com um desfecho mais técnico e, portanto, bem menos interessante para quem vive da tensão de narrativas.

Mas é forçoso admitir que há sempre a possibilidade contrária, ainda que remota. E é ela que move o burburinho. É a velha Brasília – não a amarela, mas a empoeirada -, onde o que realmente importa nunca é o que já foi dito, e sim o que ainda pode ser dito.

E poucas coisas produzem mais inquietação no poder do que alguém disposto a falar — mesmo que, no final, não diga nada de novo. Ainda assim, todos escutam, seja por precaução ou para guardar na memória. Porque, reitere-se, em Brasília, as duas coisas costumam ser a mesma. Por fim, um detalhe que não pode passar despercebido: somente Paulo Henrique Costa e seu advogado Cleber Lopes têm em mente o que será dito; portanto, alguém pode especular em lenha ou água na fogueira. Como não sou de apostar, prefiro manter minhas moedas na algibeira.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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