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Tese elitista

Pobre que desconhece rico tem liberdade de vive feliz

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo/Valter Campanato

Época em que as mentiras pululam nos lares brasileiros, lembro que falar ou escrever sobre o pobre é, acima de tudo, reverenciar quem tem história, vivência, liberdade e muita alegria para dar, vender e distribuir. É o segmento que elege a maioria. Não à toa, a alegria do pobre, ainda que menos durável, é normal e honestamente mais intensa do que a do rico. Apesar de alegre, desde que inventaram o “tá ruim”, a vida do pobre é igual a 2 + 2 = 5, incluindo os impostos. Ou seja, as contas não fecham nunca. Nada muda entre o Ano Novo e o Natal. E daí? Pobre que é pobre não desanima. Desânimo só para os torcedores do Palmeiras. Eles dormem a acordam acreditando que um dia serão campeões mundiais.

Para o chamado pobre raiz – eu sou um deles -, político mentiroso e corrupto é o câncer a ser extirpado. Fora isso, nem mesmo o pé na bunda consegue tirá-lo do sério. Afinal, essa é a forma mais utilizada para empurrá-lo para frente. Desbundado ou não, o bom da vida do pobre é o domingo, quando ele imagina a taça de vinho Sangue de Boi como a melhor resposta para a pergunta que não se quer ouvir. O pior do domingo é a proximidade com a segunda-feira, dia em que o pobre que se preza acorda lembrando da cerveja quente no copo de plástico. Não tem crise. Pelo contrário. A carteira está vazia, mas o sorriso largo mostra a boca cheia de dentes careados.

Faz tempo que a mala de pobre deixou de ser a trouxa, o cadeado e o nó. Embora viva constantemente no modo economia de energia, o pobre sabe que na vida tudo passa, nem que seja por cima deles. Tivemos ministros que tinham ojeriza de pobres na Disney. É por conta de idiotas como ele que os pobres fazem tanto sucesso. Hoje o pobre também viaja de avião, vai e vem de trem lotado e, depois de ultrapassar a fase do Parkinson, enriquece com a aposentadoria do INSS. Como eles, sou feliz assim. Nasci pobre e, como qualquer teimoso, pobre morrerei. Melhor ser um eterno amendoim do que circular se sentido paçoca.

Concordo, em parte, com as teses elitistas de que pobre só come carne quando morde a língua e que galinha na casa de pobre significa que um dos dois está doente. No entanto, invertendo a ordem, qual a graça de ser o mais rico do cemitério. Isso não é privilégio de ninguém. Privilegiado é aquele cuja mente é seu principal ativo. É aquele com sabedoria para enriquecer o espírito. É aquele que tem pelo menos cinco amigos leais e também pobres, mas que os fazem se imaginar ricos para a vida inteira. Eis a razão pela qual eduquei minhas filhas para serem felizes. Desse modo, elas sempre saberão o valor das coisas e não o seu preço.

Desde que o mundo é mundo, aplaudir as tolices dos ricos ajuda a esconder as máximas de um pobre. Dizer que pobre só fica de barriga cheia quando morre afogado ou que só anda de carro quando é preso no camburão serve para amenizar a imagem do homem rico sempre vendido à instituição que o fez rico. Prefiro que me digam que Sonrisal é o meu champanhe. Também não me incomodo de ouvir que meu jornal é a bula de remédio, tampouco que só como fora de casa quando ponho a mesa no quintal. Pelo menos não tenho a infelicidade de ser obrigado a conviver com os ricos.

Por fim, é verdade que pobre e cachimbo nasceram para levar fumo. Mentira é escrever que ladrão na casa de pobre só leva susto e que televisão de pobre é janela de trem. Pobre parou de matar cachorro a grito e não se enrola mais no papel higiênico. Hoje, além de uma Lambe-Rola na garagem, ele ensina o louro a falar ingrês, tem parabólica, usa Neve folha dupla, dispõe de Orkut, Facebook, X e Instagram e trocou os perfumes antiquados da Avon pelas fragrâncias Sinfonia dos sapos e Balé de vagalumes, novos lançamentos da Jequiti e cujas fórmulas Silvio Santos levou para o fundo do baú. O planeta mudou. O pobre também. A exemplo do rico, ele agora acompanha a procissão, não persegue mais o santo e não vota mais em qualquer um. Apesar da evolução, eu queria ser pobre apenas um dia na vida, porque ser todo dia é flórida.

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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