Curta nossa página


Negócio próprio

Político brasileiro vive entre mundo santo e as vantagens da corrupção

Publicado

Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Frequentemente atribuída ao filósofo Nicolau Maquiavel, a célebre frase “Dê poder ao homem e descobrirá quem ele realmente é” resume como a autoridade e a ausência de limites alcançam a falta de caráter. Além de corromper, o poder mal exercido tem a função de despir as convenções, revelando a verdadeira essência, as virtudes e os vícios que o indivíduo sem honradez cultiva em segredo. Qualquer leigo sabe que o poder é sempre perigoso para aqueles desacostumados a mandar.

Ter influência, domínio e autoridade normalmente gera grandeza e acaba atraindo os piores e corrompendo os melhores. É claro que não necessariamente nessa ordem. Conforme William Shakespeare, o pior da grandeza é quando ela separa a consciência do poder. É aí que os desprovidos de caráter confundem o público com o privado. Mesmo sem mandato, alguns supostamente influentes transitam pelo Congresso Nacional como se a casa de leis fosse realmente a casa da Mãe Joana.

Apoiado e defendido por candidatos que se dizem aptos a administrar a nação, essas figuras operam na Câmara e no Senado como se estivessem administrando um negócio próprio. O descaramento chega ao ponto de dois ex-deputados federais, um deles atualmente presidindo um partido de histórias demoníacas e mitológicas, se acharem donos de parte significativa do Orçamento da União. É uma espécie de roleta russa com o dinheiro público. São a prova de que poder e corrupção são palavras comuns no vocabulário das excelências sem consciência pública

De posse de planilhas secretas e de indicações fajutas, ambos manipularam abertamente o Orçamento, distribuindo dinheiro para coisa alguma, em detrimento das necessidades óbvias dos sistemas de saúde, educação, segurança e infraestrutura. Curioso é que são as mesmas excelências que pregavam e pregam honestidade e transparência nos negócios públicos. Não com aqueles com os quais eles estão envolvidos. Esses são negociados nos bastidores e na surdina ficariam não fosse a ação do ministro do STF Flávio Dino. De uma só tacada, Dino determinou a suspensão de emendas parlamentares indicadas irregularmente pelos ex-deputados Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha.

Como há suspeita de apoio de servidores do Congresso para o desvio de recursos públicos para as respectivas contas particulares, ambos também tiveram os bens bloqueados. Justo, muito justo, justíssimo. Flávio Dino determinou o bloqueio de até R$ 119,2 milhões de Valdemar e mais R$ 6 milhões de Cunha. Só no Brasil dois deputados sem mandato têm acesso ao Orçamento da União. São esses os chamados homens públicos que posam de cidadãos acima de qualquer suspeita e, com base na probidade e na integridade que nunca tiveram, se acham no direito de chamar Luiz Inácio de Ladrão.

Coisas da democracia, sistema que permite ao político santo e ao corrupto ter seu próprio encanto. Cada vez mais me convenço da existência de dois tipos clássicos na política partidária do Brasil: os corruptos declarados e os declarados corruptos. Os bons ficam à mercê desses. Como sou cidadão ficha limpa, torço para que um dia todos os corruptos sejam afogados na onda da indignação do povo. O trabalho sujo de Valdemar Costa Neto, de Eduardo Cunha e de muitos outros congressistas ou não poderia ser o prenúncio de que esse dia está próximo. Uma pena, mas acho que não, pelo menos enquanto tivermos os patriotas que temos.

…….

Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.