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Como dois e dois

Político incorreto é fruto da incorreção do eleitor

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Autor/Imagem:
Misael Igreja - Foto de Arquivo

Como tudo ou quase tudo de mais ou menos que nos acontece vem dos Estados Unidos de Donald Trump, o vocábulo politicamente correto ganhou força nas universidades norte-americanas entre os anos 1970 e 1990. Inicialmente relacionado a movimentos de esquerda para combater o preconceito enraizado na linguagem cotidiana, o termo passou a ser usado por setores conservadores (a direita) de forma pejorativa, associando a prática a uma forma de censura, patrulhamento ideológico ou restrição à liberdade de expressão.

Não sou misógino, racista, homofóbico ou xenofóbico. Muito pelo contrário. Nasci, cresci e morrerei defendendo as diferenças. No entanto, mais do que respeito básico e empatia, acho que o excesso na defesa do conceito pode banalizar o debate público e, principalmente, criar barreiras à espontaneidade e ao humor. Sinceramente, o politicamente correto de hoje serve apenas para silenciar nosso discernimento e destruir as peculiaridades que nos tornam únicos. Incorretos são os políticos que os que se apresentam como politicamente corretos insistem em eleger. Nada mais do que isso.

À direita e à esquerda, a intolerância chegou a tal ponto que os minimamente inteligentes se sentem proibidos de pensar ou refletir para não ofender os intelectualmente estúpidos. A verdade é que ficou difícil encontrar substantivos, adjetivos, verbos ou palavras que se encaixem nesse mundo impregnado de mentiras, demagogias e hipocrisias. Afinal, o que significa o correto e o verdadeiro? Roubar o dinheiro do povo por meio das emendas parlamentares pode. Proibido é alcunhar os ladrões do dinheiro público de larápios ou de faccionados.

Com todo respeito, politicamente correto é o disfarce medonho da censura e da tirania. Politicamente correto é votar em pessoas sérias, honestas e que minimamente trabalhem pelo bem-estar coletivo. Qual será a escolha correta quando não existir nada tão correto e tudo parecer contraditório? Partindo do princípio de que o politicamente correto nunca é sobre o que se fala, mas sobre quem fala. Por exemplo, os “patriotas” adoram chamar Lula da Silva de ladrão, mas ameaçam processar e até matar quem se atrever a insinuar que o patrimônio do clã Bolsonaro é incompatível com a vida profissional que declaram. Aprendi que crime é ofender quem quer que seja.

Cor, credo, ideologia, opção sexual e time de futebol são iguais à bunda. Cada um tem a sua. Portanto, tudo que não é nosso merece respeito. Uma pena, pois a vida era tão simples antes do politicamente correto. Era tudo tão perfeito, correto e banal. Nos subúrbios do Brasil e no interior do país, os chifres, segredos e carnês das Casas Bahia são comuns e ninguém reclama da vida. Desde a antiguidade, a elite enfadonha e medíocre não aceita as banalidades, tampouco a alegria do povo. Aliás, é a mesma elite, acompanhada de seus vassalos, que adora eleger políticos política, administrativa e financeiramente incorretos. Reiterando o que já escrevi neste mesmo espaço, o argumento de autodefesa é que somente um tolo não usa o poder que tem.

Considerando que a maioria esmagadora da população brasileira é honesta, somos todos tolos. Para os que adjetivam um déspota de mito, um democrata de ladrão e um destemido ministro do STF de gordinho, não é nenhuma anormalidade defender hipocritamente e de longe os que eles diariamente fazem questão de excluir. Em nome de seus interesses, negociam a pátria e vendem o povo como quem troca ouro por cobre vil. É isso que chamam de politicamente correto? Fugir da classe trabalhadora como quem foge da cruz e agir como ratos de esgoto é a comprovação da incorreção dos que se acham mais corretos do que os corretos. Sempre foi e sempre será assim. Pelo menos até o dia em que votarmos com a correção que exigimos daqueles que elegemos. Como dois e dois, políticos incorretos são sinônimos da incorreção de quem os escolhe.

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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

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