O Cinema como Sentinela
Por que o Brasil não pode esquecer 1964
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O cinema brasileiro sempre foi muito mais do que apenas pipoca e entretenimento. Nas últimas décadas, cineastas do país assumiram uma missão quase sagrada: a de funcionar como um “arquivo vivo” de um dos períodos mais sombrios da nossa história, a Ditadura Militar. Filmar o que aconteceu entre 1964 e 1985 não é apenas contar uma história antiga, mas garantir que o presente não perca o rumo.
É comum ouvirmos que “o que passou, passou”, mas no caso de regimes autoritários, o silêncio é o melhor amigo da repetição. O cinema entra em cena para quebrar esse gelo. Quando um filme retrata a censura ou a perseguição, ele educa as novas gerações de um jeito que os livros didáticos, por vezes frios, não conseguem. A tela grande traz a emoção que humaniza os dados estatísticos.
Recentemente, obras como Ainda Estou Aqui mostraram que o foco das narrativas mudou. Se antes o cinema focava muito nos comícios e na política das ruas, hoje ele entra na sala de estar das famílias. O filme de Walter Salles foca na luta de Eunice Paiva para criar seus filhos e descobrir o que o Estado fez com seu marido, Rubens Paiva. Isso gera uma empatia imediata no público: poderia ser a família de qualquer um de nós.
Essa mudança de perspectiva é fundamental para o entendimento de que a ditadura não afetou apenas “políticos”. Ela destruiu lares, interrompeu carreiras e calou vozes de artistas, professores e estudantes. Ao ver o sofrimento de uma mãe ou o medo de uma criança, como no sensível O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, o espectador entende que a liberdade é um bem frágil e precioso.
Além do drama familiar, o cinema de ação também cumpre seu papel. Filmes como Marighella, dirigido por Wagner Moura, trazem uma energia visceral para a tela. Eles mostram a resistência ativa e os dilemas éticos de quem decidiu pegar em armas contra o regime. Esse tipo de obra gera debate, incomoda e faz com que o público saia da sala de cinema questionando as versões oficiais da história.
Outro ponto crucial é a denúncia da tortura. Filmes como Batismo de Sangue e Zuzu Angel não desviam o olhar da brutalidade cometida em porões oficiais como o DOI-CODI. Ver essas cenas é desconfortável, mas necessário. O desconforto é o que nos impede de aceitar discursos negacionistas que tentam dizer que “não foi bem assim”. O cinema prova, com imagens e sons, que foi, sim, muito grave.
O papel dos documentários também não pode ser esquecido. Enquanto a ficção nos faz sentir, o documentário nos faz compreender a engrenagem do poder. O Dia que Durou 21 Anos, por exemplo, utiliza documentos reais para mostrar como forças estrangeiras influenciaram o golpe. É uma aula de geopolítica que explica como o Brasil foi inserido em um jogo de xadrez global durante a Guerra Fria.
A evolução das produções ao longo das décadas mostra que o cinema brasileiro está amadurecendo sua forma de lidar com o trauma. Nos anos 70, a censura obrigava os diretores a usarem metáforas e mensagens escondidas. Hoje, a liberdade de expressão conquistada a duras penas permite que a verdade seja dita sem rodeios, com a clareza que a democracia exige.
Manter essa memória viva através das câmeras é uma forma de reparação histórica. Para muitas famílias que nunca puderam enterrar seus mortos ou que nunca receberam um pedido de desculpas oficial, ver sua dor reconhecida em um filme premiado mundialmente é uma forma de justiça simbólica. O cinema oferece o reconhecimento que as instituições, por vezes, negam.
Além disso, a indústria audiovisual gera empregos e leva a cultura brasileira para os maiores festivais do mundo, como Cannes e Veneza. Quando um filme sobre a nossa história faz sucesso no exterior, ele mostra que o Brasil é uma nação que encara seus fantasmas de frente. Isso traz respeito internacional e fortalece a nossa identidade cultural.
Portanto, apoiar e assistir ao cinema nacional que trata desse tema não é um ato de “revanchismo”. É um exercício de cidadania. É entender que a democracia brasileira é uma construção constante e que a vigilância deve ser eterna. Cada ingresso comprado para um filme histórico é um voto de confiança na liberdade e na memória do país.
Por fim, o cinema nos ensina que o esquecimento é uma forma de nova violência. Enquanto houver luz projetada em uma tela branca, as vozes daqueles que foram calados no passado continuarão ecoando. Que as futuras gerações possam olhar para esses filmes não como um espelho do que vivem, mas como um lembrete constante de um caminho que nunca mais desejamos trilhar.