Como se fosse cárcere
Por que te escondes?
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Por que tremes, poesia,
como se o vento fosse cárcere
e o silêncio, muralha?
Não te ocultes sob véus celestes,
nem te dissolvas no giro incerto das horas.
Talvez o tempo seja apenas um espelho partido,
onde o presente se perde em corredores sem saída.
Olha para trás:
o amanhecer ainda suspira por tua voz,
as roseiras guardam perfumes órfãos,
os lírios se curvam em lágrimas invisíveis,
e os altares da palavra permanecem desertos,
clamando por tua chama.
As auroras imploram o fulgor dos teus sonhos,
o ocaso se entristece sem tua visita,
e tu, escondida em recantos estreitos,
percebes o deserto errante
que esqueceu suas constelações.
Precisamos de ti nas inscrições do amor,
na sacada do infinito,
onde os retalhos da vida se agitam
como pássaros sem ninho.
Convoca a pomba da paz com teus versos,
faz o pranto se dissolver em rios de esperança.
Ergue-te, poesia,
voa com a brisa e derrama teus cantos
sobre almas marcadas por cicatrizes.
Retorna aos madrigais, às prosas vivas,
sê a tocha que ilumina o pódio da arte,
a centelha que reacende o coração do mundo.
Se te calares, quem dará fôlego ao universo?
Somente tuas letras repousam serenas,
capazes de despertar a esperança adormecida
e acender halos de ternura,
até que os sorrisos voltem a florescer
como constelações renascidas.
Não te cales poesia, há almas
que dependem de ti.