A vida não é narrativa épica
Por que vencer demora tanto?
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Vencer demora porque não é um evento é um processo.
E processos não obedecem à pressa de quem sofreu demais.
Nós fomos ensinadas a imaginar a vitória como um ponto de chegada: um dia específico, uma virada clara, um momento em que tudo finalmente faz sentido. Mas a vida não funciona como narrativa épica. Ela funciona como desgaste, repetição, cansaço e pequenas escolhas diárias que quase ninguém vê. Vencer, quase sempre, é silencioso.
Demora porque antes de vencer precisamos desaprender.
Desaprender a culpa que não era nossa.
Desaprender a normalizar a dor.
Desaprender a aceitar migalhas como se fossem conquistas.
E desaprender é mais difícil do que aprender.
Heidegger diria que estamos lançadas no mundo (Geworfenheit), sem manual, sem garantias, obrigadas a existir antes mesmo de entender. A vitória, nesse sentido, não é escapar dessa condição, mas assumi-la. E assumir a própria existência com tudo o que ela carrega exige tempo.
Demora porque vencer não é só ganhar algo; muitas vezes é perder.
Perder pessoas.
Perder ilusões.
Perder versões antigas de nós mesmas que sobreviveram como puderam, mas já não servem mais.
Judith Butler nos lembra que toda transformação real passa por uma certa forma de luto. E luto não se apressa.
Demora porque o mundo não foi feito para que nós vençamos rápido.
Especialmente nós, mulheres.
Nós que precisamos provar o dobro, resistir em silêncio, seguir funcionando enquanto sangramos por dentro. Angela Davis já dizia que a resistência cotidiana é menos visível que o triunfo, mas é ela que sustenta qualquer mudança real.
Vencer demora porque o corpo precisa acompanhar a consciência. A mente até entende antes, mas o corpo carrega memória, trauma, medo. Ele não confia rápido. Ele precisa de repetição, de segurança, de tempo sem ameaça para acreditar que agora é diferente.
E talvez a pergunta precise ser um pouco deslocada:
Não é só “por que vencer demora tanto?”,
Mas por que nos ensinaram que deveria ser rápido?
Nós estamos vencendo quando escolhemos ficar.
Quando paramos de implorar.
Quando aprendemos a dizer não.
Quando recusamos guerras que não são nossas.
Quando sobrevivemos sem nos endurecer por completo.
A vitória não chega de repente.
Ela se acumula.
E um dia, quase sem perceber, nós olhamos para trás e entendemos:
Demorou porque era profunda.
Demorou porque era nossa.