Curta nossa página


Marina Dutra

Por trás de muitos homens difíceis existe um menino ferido

Publicado

Autor/Imagem:
Marina Dutra - Texto e Foto

Compreender a origem de certos comportamentos não é justificá-los. É abrir caminho para transformá-los.

Nós falamos muito sobre as dores da mulher. E isso é necessário.

Falamos sobre o peso invisível que ela carrega, sobre a sobrecarga, a culpa, a necessidade de dar conta de tudo e sobre as marcas deixadas por uma sociedade que, durante muito tempo, silenciou sua voz.

Mas existe uma pergunta que também merece espaço: Quem cuida da saúde emocional dos homens?

Talvez boa parte dos homens que conhecemos hoje nunca tenha aprendido que também podiam sentir.

Desde pequenos, muitos cresceram ouvindo frases como: “Homem não chora.” “Engole esse choro.” “Você precisa ser forte.”

Pode parecer apenas uma forma de educar, mas essas frases ensinam algo muito maior. Elas ensinam que demonstrar medo é vergonha. Que tristeza é sinal de fraqueza. Que pedir ajuda diminui o valor de um homem.

O problema é que emoções não desaparecem porque foram reprimidas. Elas apenas encontram outras formas de aparecer.

A criança que aprendeu a esconder o choro se torna o adulto que esconde a tristeza. O menino que nunca pôde demonstrar medo cresce acreditando que precisa resolver tudo sozinho. E aquele que nunca encontrou espaço para falar sobre o que sentia, muitas vezes, chega à vida adulta sem conseguir construir intimidade emocional nem consigo mesmo.

Por isso, não é raro encontrarmos homens extremamente fechados, que respondem “está tudo bem” quando, na verdade, estão emocionalmente exaustos.

Outros transformam toda emoção em irritação. A raiva passa a ser a única emoção permitida.

Também existem aqueles que vivem buscando reconhecimento o tempo todo precisam ser admirados, desejados e escolhidos porque carregam uma sensação constante de insuficiência.

Em alguns casos, essa necessidade de validação aparece através de relações superficiais ou de traições repetidas. Não porque falte amor, necessariamente, mas porque nenhuma quantidade de aprovação consegue preencher um vazio que nasceu muito antes.

Outros tentam controlar tudo, controlam a parceira, controlam os filhos, controlam as situações, porque acreditam, ainda que inconscientemente, que perder o controle significa voltar a sentir aquela fragilidade que aprenderam a esconder.

Existem também homens que respondem à dor com agressividade. Às vezes, por trás da violência, existe uma história marcada por abandono, rejeição, humilhação ou vínculos afetivos profundamente adoecidos. Em alguns casos, pode existir até um ressentimento construído em relação à figura feminina, resultado de experiências mal elaboradas ao longo da vida.

É importante deixar algo muito claro. Compreender a origem de um comportamento nunca significa justificá-lo. Nenhuma dor autoriza uma traição. Nenhuma ferida justifica uma agressão. Nenhum sofrimento dá a alguém o direito de machucar outra pessoa. Cada adulto é responsável pelas próprias escolhas. Mas quando entendemos de onde nasce uma dor, aumentamos as possibilidades de interromper o ciclo.

Existe uma frase muito conhecida que diz: “Pessoas feridas ferem. Pessoas curadas curam.”

Ela não serve para inocentar quem machuca, mas serve para nos lembrar que quem nunca aprendeu a cuidar das próprias emoções corre mais risco de descarregá-las em quem está por perto.

E esse ciclo costuma atravessar gerações.

O pai que nunca aprendeu a demonstrar afeto cria um filho que também terá dificuldade para demonstrá-lo. O menino que ouviu a vida inteira que precisava esconder as lágrimas poderá repetir exatamente a mesma frase para o próprio filho. E, assim, homens continuam sendo ensinados a parecer fortes, quando, na verdade, estão apenas aprendendo a esconder a própria dor.

A boa notícia é que esse ciclo pode ser interrompido. Ninguém está condenado a viver preso aos aprendizados da infância. Hoje sabemos que força não é ausência de emoção. Força é conseguir olhar para aquilo que sentimos sem fugir…

…É reconhecer limites, é pedir ajuda quando necessário, compreender que vulnerabilidade não diminui ninguém. Ao contrário, ela humaniza e é justamente nesse ponto que a terapia pode fazer toda a diferença.

Muitas vezes o problema não está no comportamento em si, mas na dor que continua escondida por trás dele. Quando essa dor encontra espaço para ser acolhida, compreendida e ressignificada, o homem deixa de lutar contra si mesmo. E isso transforma não apenas a vida dele, mas também a forma como ele ama, educa, trabalha e se relaciona.

A pergunta que fica hoje é: Que emoções você aprendeu a esconder para parecer forte? Porque talvez a maior demonstração de coragem não seja suportar tudo sozinho. Que tal permitir que alguém veja a sua humanidade? Fica aqui o convite para você refletir

………………….

Marina Dutra – Terapeuta Integrativa
Acompanhe a nova temporada de lives no Instagram @sersuperconsciente.
🎙️ Um olhar além do óbvio — quartas-feiras, às 20h.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.