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Onda verde

Predadores ambientais mudaram o rumo e o ritmo das quatro estações

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Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto de Arquivo

Para aqueles que, como eu, estão longe das cidades litorâneas, o verão é uma indignidade. Estação em que os dias são cheios de luz e de cor, é no outono que as folhas envelhecem bonitas. É um período civilizado. Florescer é a arte da primavera, palco em que a vida encena seu mais belo espetáculo. E o inverno? Como disse o poeta, ele é o preço que pagamos para ter o outono. Por isso, apesar de traiçoeiro e de nos obrigar ao recolhimento, está perdoado.

Gostos à parte, as estações existem para nos mostrar que a beleza pode assumir as mais variadas formas. Sem qualquer manifestação piegas de nostalgia, quanta saudade eu sinto das estações bem definidas do meu tempo de menino. Desde então, mesmo sem conhecimento a respeito da força e das formas da natureza, sempre quis que a vida fosse dividida em quatro estágios, mas sem a necessidade de ter um fim. O que fazer se ela só é eterna enquanto dura? Ainda bem! É o ciclo perfeito da vida.

Assim são as estações. A queda das folhas no outono anuncia a transformação e, às vezes, o renascimento. O frio e a chuva do inverno são sinônimos de resistência e de esperança. O riso e o desabrochar das flores significam a presença plena e absoluta da primavera. Prenúncio de luz e de alegria, o esplendor do sol chega junto com o verão. Eis o encantamento da vida. Amigas para sempre. Assim são as estações. Elas são a vida. Todas têm seu tempo determinado. Nem mais e nem menos.

Às vezes, elas passam e não percebemos. Como diz o poeta, na primavera somos meninos, no outono adolescentes, no verão adultos e no inverno começamos a envelhecer. Assim como nos preparamos para as quatro estações, passamos a vida inteira nos preparando para a morte e quando ela chega não podemos assistir. É o tempo passando, dissolvendo o desnecessário e nos ensinando a preservar o essencial. O problema do século 21 é nos conscientizarmos do que é ou não essencial.

Ainda que tenhamos pouco tempo para determinadas percepções, atualmente é fundamental que nos preocupemos com o meio ambiente. Embora não haja relação entre ele e as quatro estações, o descontrole ambiental tem modificado o comportamento previsível das estações, gerando fenômenos extremos, entre eles secas prolongadas e ondas de calor acima da média. No meu tempo de menino, a ganância dos predadores ambientais não era como hoje. Eles mudaram o rumo e o ritmo das quatro estações. Eu vivi quando elas ainda eram bem definidas.

Era a época em que meninos, meninas, adolescentes, jovens e velhos não tinham necessidade de viver a tal da onda verde. Nas chamadas rodas de formandos do Google, Facebook e Instagram, minha geração é acusada de não se preocupar suficientemente com o meio ambiente. Por sermos jurássicos, não precisávamos de tanta histeria com a natureza. A ausência da sanha predatória nos beneficiava. Não usávamos sacolas de plástico, nossas embalagens de leite eram de vidro e as garrafas de cerveja e de refrigerante voltavam para as lojas, de onde seguiam para as fábricas para lavagem e esterilização antes de cada reuso.

Como os internautas não pesquisam, vale registrar que, assim como os políticos, nossas fraldas tinham de ser lavadas porque as descartáveis não passavam de utopia. Nem a futurista família Jetsons usava. A secagem nós mesmos fazíamos em varais artesanais. Máquinas secadoras elétricas nem em sonhos. Rádio e TV em casa era um para todos os cômodos. Na cozinha, batíamos tudo com as mãos. Os jornais velhos substituíam o plástico bolha e as pellets de plástico, ambos com duração mínima de cinco séculos até o início da degradação. Passaria um dia inteiro dando explicações sobre nós ontem e vocês hoje. Entretanto, prefiro lembrar que a atual geração defende o meio ambiente, mas não admite pensar em viver um pouco como na minha época.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras

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