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A temida da 5ª Série

Preta

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Tenho uma amiga com quem, teoricamente, eu nunca teria me tornado amiga. Mas a vida resolveu escrever outra história.

Ela era a temida da 5ª série. A terrível, a marrenta da escola. Mas a danada também jogava muito… e não era só no futebol.

A escola para a qual me “mudei” foi uma verdadeira salvadora de vidas para mim, um divisor de águas na minha personalidade, rs. Mas vamos voltar a falar dessa pessoa.

Na metade do ano letivo, houve uma mudança de turmas e alguns ajustes nos horários. Era uma escola experimental da prefeitura e oferecia cursos no contra turno para todos os alunos. Eu estudava à tarde, e ela, pela manhã.

Foi aí que, obrigatoriamente, nossos caminhos se cruzaram, apesar de sermos praticamente vizinhas de rua, pois morávamos no mesmo bairro.

Preta, como era conhecida, chefiava o bonde das meninas corajosas… ou abusadas. Dá no mesmo.

Um belo dia, minha turma foi informada de que seria dividida, e todos começaram a reclamar. Eu fui a sorteada para ir justamente para a turma da Preta.

Pronto… começou aquele blá-blá-blá. Mas alguém soltou:

— Vai, Nany! É a tua vez de encarar ela.

Só que, ao contrário dos filmes em que o bicho pega, nós acabamos virando um bondão. E daqueles de amizade verdadeira. Uma turma de jovens cúmplices na bagunça, na cola, nas trocas de provas e em tantas aventuras, até que o fim da oitava série nos separasse.

Minha nova turma era unida pra cacete. Era cada uma que aprontava… Nem meus alunos, com toda a vontade do mundo, conseguiriam repetir. (Graças a Deus!)

Fizemos parte do Grêmio Estudantil, do time da escola e das apresentações de voz e violão. Vieram os torneios estaduais, as apresentações em vários lugares, os títulos e muitas medalhas.

Também tinha um professor muito gato, por quem todas nós tínhamos uma quedinha. Além de bonito, era gente fina pra caramba.

Um belo dia, fomos chamadas para jogar contra uma escola de uma comunidade. Até aí, tudo tranquilo.

Separamos os uniformes, todas lindas e bem orientadas. Afinal, sabe como é: um pé dentro da quadra e outro fora, sempre com os olhos atentos a tudo.

Partimos para o tal Brizolão, com torcida e tudo. Perdemos o jogo.

Na saída, porém, aconteceu uma troca indevida no vestiário.

Em meio a tantos tênis espalhados, uma menina do outro time calçou o tênis da Preta. Foi o suficiente para começar o maior furdunço.

Pronto! A Preta retribuiu a “cordialidade” da situação na mesma intensidade.

Pouco depois, a garota voltou acompanhada de alguns coleguinhas, todos muito dispostos a cobrar o tal tênis. Foi aquela correria.

Cada uma catando o que podia, jogando tudo dentro da mochila e correndo dali.

A reta parecia interminável. Devia ter uns dez quilômetros… ou, pelo menos, era o que parecia naquela hora.

Quando finalmente chegamos ao centro do bairro mais próximo, um lugar enorme, percebemos que muita gente olhava para trás.

Foi então que a Preta percebeu:

— Gente… eu deixei o tênis para trás! Nunca corri tanto na minha vida.

Quando chegamos à escola, ainda tivemos que ouvir uma bronca das diretoras, que pareciam uma dupla sertaneja de tão afinadas.

E o professor gatinho?

Estava uma mistura de bravo e decepcionado. Nem sabia dar bronca direito, mas avisou:

— Nunca mais saio com a turma de vocês!

Naquele dia, acho que ele descobriu que ser professor de um grupo de adolescentes exigia muito mais preparo físico do que imaginava.

Hoje, quando lembro da Preta, dou risada. A menina que parecia a mais brava da escola acabou se tornando uma das amizades mais improváveis — e mais verdadeiras — que a vida me deu. Porque, às vezes, a fama assusta. Mas o coração surpreende.

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