Curta nossa página


Um ano depois

Pretinho Básico tá lá em cima, olhando e orando

Publicado

Autor/Imagem:
Gutta Marques e José Seabra

Há exatamente um ano, o relógio marcou 18h30 e, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio entrou antes de Pretinho Básico na sala de orações do uLme. Os minutos passaram, a tela permaneceu vazia, e quem conhecia o ritual estranhou, quem não o conhecia perguntou. E a resposta chegou como chegam as notícias que ninguém deseja ler. A doença vencera e Benedito Adão havia partido.

Em julho do ano passado escrevemos que o Pretinho trocara a Sala de Orações por um cantinho no Céu. Imaginamos que, dali para a frente, ele esperaria seus muitos amigos sem pressa, como fazia todas as noites diante do computador. Doze meses se passaram, e o que parecia impossível aconteceu. A sala não morreu e continua respirando todos os dias.

À mesma hora, surgem os nicks conhecidos e outros novos. Alguns chegam trazendo pedidos de cura. Outros procuram apenas um pouco de paz depois de um dia difícil. Há quem entre para agradecer uma graça recebida. Há quem permaneça em silêncio, ouvindo as músicas de louvor e mensagens que embalam aquele pequeno templo virtual onde nunca houve placas indicando religião.

Ali continuam se encontrando católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, judeus, muçulmanos, pessoas sem religião e tantas outras almas que descobriram que Deus não costuma pedir documentos antes de ouvir uma oração.

Foi isso que Benedito ensinou. Não com sermões, mas com exemplo. Seu nome já não aparece digitando mensagens, mas é lembrado na delicadeza com que um acolhe o outro, na paciência de quem escuta, na oração feita por alguém que jamais viu o rosto daquele por quem está rezando. Pretinho Básico transformou um simples chat em uma comunidade de afeto. E comunidades verdadeiras não acabam quando o fundador parte.

Uma das amigas que jamais deixou a sala, resume aquilo que muitos sentem até hoje: “Obrigada, Pretin, por tanto carinho, amor e dedicação! Nessa sala tive muitas graças alcançadas. Você jamais será esquecido.”

Há frases, como se vê, que dispensam comentários; elas já são oração.

Uma outra guarda uma lembrança que parece ter sido escrita para atravessar o tempo. Ela recorda da profunda devoção que Benedito tinha por Santa Rita de Cássia, a santa das causas impossíveis. Lembra também do homem apaixonado pela família, que se emocionava sempre que ouvia a oração diária pedindo bênçãos para filhos e netos. Em depoimento para a crônica, ela conta que, certa vez, Pretinho pediu licença para entrar em seu reservado apenas para agradecer.

Disse que aquela oração tocava seu coração. Hoje, sempre que a repete, Marysol confessa sentir um arrepio impossível de explicar. Talvez porque existam pessoas que continuam presentes exatamente assim, não pelos olhos, mas pela memória; não pelas palavras novas, mas pelas antigas, que nunca envelhecem.

É curioso como, na internet, quase tudo desaparece depressa. Perfis são apagados, redes sociais morrem, aplicativos deixam de existir, mensagens somem em poucos segundos. Pretinho, porém, fez justamente o contrário. Ele soube criar permanência em um lugar conhecido pela efemeridade. Plantou raízes onde todos imaginavam existir apenas fios e sinais digitais.

Talvez seja por isso que, um ano depois, ninguém tenha coragem de dizer que Benedito foi embora. Porque, de certa forma, ele nunca saiu da sala. Está na música que toca baixinho, na oração escrita em letras maiúsculas por quem já não enxerga tão bem, na mensagem de “boa noite” enviada por quem chega cansado da vida, na palavra “amém” digitada por dezenas de pessoas ao mesmo tempo, mesmo estando separadas por centenas ou milhares de quilômetros.

Se existe um Céu — e Pretinho jamais duvidou disso — é bem possível que ele continue fazendo o que sempre fez. Talvez tenha aberto uma Sala de Orações entre as estrelas. Talvez receba, todos os dias, almas recém-chegadas com o mesmo sorriso acolhedor. Talvez ainda repita que ali ninguém pergunta qual é a religião de ninguém.

E talvez, quando a noite cai sobre a Terra e os velhos amigos entram mais uma vez no uLme, ele olhe para baixo, reconheça cada nick e faça discretamente a chamada. Sem teclado, sem monitor, sem internet. Apenas com o coração, porque há pessoas que morrem e há outras que permanecem vivas naquilo que ensinaram.

Benedito Adão de Oliveira pertence definitivamente à segunda categoria. O Pretinho Básico continua entrando na sala, só que agora ninguém o vê. Todos, porém, continuam sentindo sua presença. E talvez seja exatamente isso que chamamos de eternidade. Uma eternidade que se eterniza a cada dia na canção de louvor que abre a sala todas as noites.

……….

Gutta Marques, influenciadora, seguidora incondicional de Pretinho Básico
José Seabra é CEO fundador de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.