Dramaturgia cortada
Primogênito fica sem recheio no discurso do processo eleitoral
Publicado
em
Ao contrário do que imaginam os bolsonaristas e sonham alguns patriotas mais radicais, o ministro Alexandre de Moraes não roeu a corda, o Supremo Tribunal não se apequenou e o futuro do ex-presidente Jair Bolsonaro não é nada otimista. Muito pelo contrário. Exclusivamente humanitária, a concessão da prisão domiciliar por 90 dias ao capitão significa apenas evitar, pelo menos temporariamente, que ele continue se valendo da boa fé da população leiga e fanática para beneficiar o filho candidato.
Se alguém foi além disso, o melhor a fazer é se reciclar politicamente. Com seus 20 e poucos anos de praia, Alexandre de Moraes conhece todos os meandros do Judiciário e seu envolvimento com a politicagem matreira do tipo eu só quero me dar bem. Sugiro aos ideólogos de plantão evitar os fogos e os convescotes familiares e partidários, pois o domicílio permanecerá um exílio para aquele que foi sem nunca ter sido.
Sem palavras mais fáceis de serem entendidas pelos falsos acadêmicos do bolsonarismo, a liberdade provisória de Jair Messias é para tratamento de saúde. Nada além disso. Ou seja, o recolhimento ao lar atendeu recomendação do procurador-geral da República e não dá ao ex-presidente o direito de transformar o solar dos Bolsonaro em escritório político para a candidatura presidencial do filho 01.
Não tenho informações seguras, mas acredito que, do alto de sua inteligência secular de pizzaiolo, o ministro Xandão também proibiu assar pizzas durante o período da domiciliar. Tal permissão poderia sinalizar gentilezas anormais e representativas de que o mal estaria vencendo o bem. Aliás, para bom entendedor, a decisão de Alexandre de Moraes tirou de vez o recheio dos discursos melodramáticos de Flávio Bolsonaro.
Ainda que não seja adepto de radicalismos da direita, da esquerda, do centro, muito menos do Poder Judiciário, ouvi dizer que, em sua decisão, Xandão limitou a presença de Bolsonaro no lar a privilégios básicos para conter a suposta enfermidade incurável. Durante 90 dias, Jair Messias terá direito a água, oxigênio, remédios prescritos pelos doutores do coração e alimentos. Fora isso, o Brasil e a maioria dos brasileiros entenderão como mordomia.
Perguntarão os menos preocupados com a saúde do capitão se ele poderá transar. Mesmo sem conhecimento de causa, direi que não. Afinal, ele é um presidiário. Como disse pública e genericamente um desses políticos arretados e sem papas na língua, se o preso quer transar não deveria cometer crimes. Faço minhas as palavras do parlamentar, cujo nome é dispensável: “Eu não estou conseguindo transar e não sou criminoso”. Estamos juntos, excelência. Voto com o relator.
……
Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras