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Natureza recuperada

Principal cachoeira do Salto Corumbá voltou a ter água após 250 anos

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Autor/Imagem:
Salete Sampaio - Foto Divulgação

A cachoeira mais alta do complexo ecológico Salto Corumbá, localizada em Corumbá de Goiás, no Entorno do Distrito Federal, consolidou-se como um dos principais cartões-postais do território goiano. No entanto, quem contempla a imponente queda d’água atualmente mal consegue imaginar que o ponto turístico passou mais de dois séculos e meio completamente seco. De acordo com os registros defendidos pelo historiador Ramir Curado, o desaparecimento do fluxo de água não ocorreu devido a fenômenos climáticos, mas sim por uma drástica intervenção humana provocada no período colonial brasileiro.

O sumiço das águas remonta diretamente ao século XVIII, quando a febre da mineração dominava a região central do país. Naquela época, os exploradores de minérios decidiram realizar um desvio artificial no curso original do Rio Corumbá com o intuito de facilitar a extração de jazidas de ouro que estavam escondidas no leito. A imponente queda d’água natural era enxergada pelos bandeirantes e mineradores como um obstáculo geográfico que atrapalhava a linha de produção das lavras coloniais, o que justificou a alteração do leito do rio.

A correção desse erro histórico e ambiental só começou a ganhar contornos definitivos no final do século XX, durante obras de infraestrutura na região. O coordenador da Rota dos Pireneus e atual gestor do complexo Salto Corumbá, Cleber Nerys, explicou que a oportunidade surgiu no período de pavimentação asfáltica da rodovia BR-414. Aproveitando o maquinário e as intervenções estruturais da estrada federal que acompanha o curso do rio por vários quilômetros, engenheiros e técnicos planejaram a reestruturação da calha original do manancial.

De acordo com as explicações históricas de Ramir Curado, os trabalhos focados na recomposição da geografia local surtiram efeito definitivo no ano de 1988. Foi nesse período que a água finalmente voltou a verter e despencar pela parede rochosa da cachoeira principal, restabelecendo o fluxo que dá nome ao atual parque. O especialista atribui o sucesso e o financiamento dessa complexa operação de restauração ecológica e topográfica ao esforço do proprietário da área privada do atrativo, Rodrigo Estivallet Borges Teixeira.

Mesmo com o sucesso do retorno das águas para a calha correta, as marcas da ação humana do passado não foram completamente apagadas da paisagem goiana. Os visitantes que realizam as trilhas ecológicas no parque ainda conseguem ver com nitidez o canal aberto artificialmente no século XVIII pelas ferramentas dos mineradores de ouro. Esse antigo traçado histórico foi preservado pela administração e transformado em um dos pontos de visitação guiada, servindo como uma espécie de museu a céu aberto para a educação ambiental.

A trajetória da cidade de Corumbá de Goiás confunde-se inteiramente com esse ciclo extrativista e com o leito do manancial. O município nasceu oficialmente em 8 de setembro de 1730, impulsionado justamente pela descoberta das primeiras pepitas de ouro nas margens do mesmo rio que batizou a localidade. Recentemente, a histórica cidade celebrou o marco de seus 296 anos de fundação civil, consolidando sua vocação para o ecoturismo em virtude de sua integração direta à famosa região turística da Serra dos Pireneus.

O complexo do Salto Corumbá abriga atualmente um total de seis cachoeiras estruturadas para o banho e contemplação dos turistas. A principal delas, que protagonizou o fenômeno do secamento histórico, possui aproximadamente 50 metros de altura de queda livre. Dados estatísticos mantidos pela Secretaria Municipal de Turismo apontam que a infraestrutura do parque atrai uma média expressiva de 120 mil visitantes nacionais e estrangeiros ao longo de cada ano.

O atual administrador do atrativo, Rodrigo Estivallet, reforça que a busca constante pelo local reflete uma necessidade contemporânea das populações urbanas. Em sua avaliação pessoal, o fluxo contínuo de turistas em direção a Corumbá de Goiás ocorre porque as pessoas procuram o contato direto com a biodiversidade e o isolamento temporário da rotina estressante das metrópoles. O objetivo dos viajantes gira em torno da busca por experiências sensoriais de contemplação e desaceleração, agora embaladas pelo som contínuo da cachoeira ressuscitada.

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