Bloco de carnaval
Procurei no armário velhas fantasias…
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Chegou o Carnaval, e me deu uma vontade arretada de soltar a franga num bloco bem promíscuo, tipo ninguém é de ninguém.
Procurei no armário velhas fantasias, algumas de jogos eróticos, tipo normalista taradinha, enfermeira sexy, policial dominadora, coisas assim.
Mas eu estava bem mais gorda, não entrei em nenhuma.
Então coloquei um short e uma blusa decotada. A parte de baixo estava quase rebentando, mas realçava as polpas de minha bundinha (na verdade, de minha bundona), e isso era o fundamental.
E se as costuras cedessem na pegação do bloco, tudo bem. Usava uma calcinha bonita, e quem anda na chuva é pra se queimar.
E então as convoquei. Não Afrodite ou Ishtar, deusas do erotismo na Grécia antiga e na Mesopotâmia. Tampouco pedi os favores de dona Maria Padilha e outras pombagiras de ponta na umbanda e nos rituais afro-brasileiros. Fazia tempo que o primeiro escalão não era pra mim, tornara-se muita areia pro meu caminhãozinho.
Apelei pro “grande elenco”, pras coadjuvantes. As prostitutas sagradas, que apagavam o fogo de soldados e artesãos nos templos de Ishtar, e as pornoi, anônimas mercadoras do sexo nos bordéis e nas ruas das cidades-estado da Hélade, com sua clientela de trabalhadores rurais e urbanos, comerciantes e marinheiros de todos os países. Eram elas, fêmeas por algumas horas de machos rudes, que se vendiam por algumas moedas, que topavam qualquer parada por um prato de comida, que me acompanhariam nesse carnaval.
Quando já estava na vibração dessas putas e ia sair de casa, olhei pra um espelho. E meu Carnaval acabou.
Vi a imagem de uma mulher envelhecida, o rosto vincado pelas experiências de prazeres e dores do passado. Uma mulher que engordara, mal cabia no shortinho – que provavelmente iria rebentar, provocando gargalhadas, e não ondas de desejo. Envelhecida era pouco; vi a imagem de uma senhora sem noção, de uma mulher idosa, de uma velha.
E então liberei minhas acompanhantes involuntárias. Que voltassem ao passado a que pertenciam, aos templos de prostituição da Babilônia e aos bordéis da Grécia. Não precisaria delas para o prazer solitário, o único me restava.
Enquanto meus dedos ansiosos desdobravam minha carne mais íntima, pensei, num lamento:
“Quero que me rasguem, não tenho quem”.
“Quero trepar, não tenho com quem”.
E então fui mais fundo em meu psiquismo, reconheci minha carência primordial e murmurei baixinho:
– Quero amar, não tenho a quem.