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Um escritor em crise

Promessa ao leitor

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Uma piadinha da adolescência conta que um homem se gabava de ser insaciável na cama, capaz de traçar mil mulheres, uma após a outra. Um empresário acreditou, alugou o Maracanã, vendeu os ingressos, descolou mil mulheres atraentes no bas fond carioca e colocou uma enorme cama no centro do gramado. Com o Maraca lotado, o garanhão entrou em campo. As mulheres se sucediam, saíam da função molinhas, com um sorriso no rosto, mostrado nos telões, e a multidão uivava:

– Machão, machão!

Quando chegou na 998ª parceira, o carinha demorou, mas conseguiu satisfazê-la. Com a 999ª foi píor, terminou a duras penas. Mas quando encarou a última, não teve jeito, o bicho não subia de modo algum.

A tigrada zombou, impiedosa:

– Broxa, broxa!

Pois é. No meu caso, não foram mulheres, e sim produções literárias. Em 15 de setembro de 2024, Notibras publicou meu primeiro conto, intitulado Não; em 21 de maio de 2026, foi postado o último, Poetas e leitores. Nesses 20 meses, a agência publicou 463 textos de minha autoria.

Dá uma sensação estranha, ser um contista sem contos no bolso do colete. Antes que a tigrada comece a zoar comigo, declaro que tenho ainda muitos textos a postar, mas entendo a relutância notibresca em publicar algo intitulado Ivo viu a vulva da vó. Uma pena, pois o enredo é bem divertido, um mimo, com o final surpreendente que todo conto puro-sangue precisa ter.

Decidi, então, revisitar textos publicados e dar-lhes uma guaribada, mudar o estilo ou, em especial, o desfecho. Fiz isso com o lago, meu 640º conto (é, bem menos que 1000), o 464º a aparecer pela Notibras. Só que, no caso das produções que chamo de pornochanchada literária, isso implica eliminar gordurinhas deliciosas – e às vezes o conto desaba, perde a razão de ser. Um exemplo, um conto intitulado Ivo não viu a vulva da vó seria meio chinfrim, sem sal, chato pra dedéu.

Então é isso. Quando a revisita resultar em algo palatável, mando pra Notibras e torço para que seja aprovado para publicação. Os rejeitados, juntamente com aqueles que nem ousei encaminhar, vão para o meu Perfil, a página Caducontos e minhas redes sociais. E, claro, sempre haverá textos novos, como estas maltraçadas.

Porque escrever é preciso, postar igualmente e, admito, viver tem lá os seus méritos.

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Cadu Matos é o escritor-mor do Café Literário. Seus textos, publicados às centenas, contribuíram e continuam contribuindo de modo significativo para a nossa enorme audiência.

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