Sentir demais tem custo
Quando a Dor Vira Linguagem
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Há um momento na vida em que nós percebemos que não dá mais para dramatizar a própria dor, mas também não dá para fingir que ela não existiu. É nesse intervalo silencioso, entre o colapso e a recomposição, que aprendemos a escrever. Não para pedir socorro, mas para organizar o caos. Não para romantizar a ferida, mas para nomeá-la e, ao nomeá-la, colocá-la no lugar certo da memória.
Nós aprendemos cedo que sentir demais tem custo. Quando nos importamos excessivamente, adoecemos; quando silenciamos por tempo demais, nos perdemos. Por isso, escrever passa a ser uma forma de negociação com a vida: colocamos no papel aquilo que não pode mais morar no corpo. Não é fuga, é tradução.
Há dores que não cabem em frases curtas, mas também não exigem espetáculo. Elas pedem densidade. Pedem pensamento. Pedem contexto. Nós não sofremos no vazio: sofremos dentro de relações, de estruturas, de expectativas sociais que nos ensinaram a amar errado, a suportar demais e a nos culpar por tudo que não foi nossa responsabilidade. Transformar isso em linguagem é um gesto político, ainda que íntimo.
Quando escrevemos, não estamos dizendo que não doeu. Estamos dizendo que doeu e passou a doer menos. Que aquilo que quase nos paralisou virou reflexão. Que o que parecia o fim revelou apenas uma travessia. Nós não arrancamos nada de nós, reorganizamos. Costuramos com palavras o que a realidade rasgou sem cuidado.
E talvez essa seja a maior maturidade que alcançamos: entender que nem toda dor precisa virar ruína, e nem toda força precisa ser barulhenta. Às vezes, estar bem é simplesmente estar sentada diante de um computador, escolhendo palavras com calma, sabendo que o pior já não manda mais.
No fim, nós seguimos. Não porque esquecemos. Mas porque aprendemos.
E sim está tudo bem.