Ali Babá
Quando a ganância perde para palavras mágicas
Publicado
em
Havia, numa cidade de poeira dourada e telhados baixos, dois irmãos que herdaramo do pai apenas o nome e a necessidade de sobreviver. Cassim, o mais velho, aprendera cedo a arte de negociar e de se aproximar das moedas; Ali Babá, o mais novo, aprendera a conversar com o vento, com os burros e com os caminhos.
Cassim prosperou. Casou-se com a filha de um rico mercador, abriu portas altas, sentou-se em tapetes macios. Ali Babá ficou com o que o mundo sempre dá aos distraídos: trabalho duro, sol nas costas e a esperança de que o dia seguinte talvez fosse menos pesado.
Todas as manhãs, ele conduzia seus animais até as colinas para recolher lenha. O deserto parecia imóvel, mas quem vive dele sabe que nada é realmente silencioso. Foi assim que, numa tarde em que o calor ondulava como água invisível, Ali Babá percebeu uma nuvem de poeira que não era vento.
Escondeu-se.
Quarenta homens surgiram montados, armados, envoltos em panos escuros. Não falavam alto; a violência raramente precisa gritar. Diante de uma parede de pedra, o chefe ergueu a voz e pronunciou palavras que cortaram o ar:
— Abre-te, Sésamo.
A rocha obedeceu como se fosse feita de cortinas.
Os homens entraram. Quando saíram, a pedra tornou a ser pedra, muda e fechada, como se guardasse o próprio segredo no fundo da garganta.
Ali Babá esperou o tempo necessário para que o medo perdesse um pouco do peso. Então aproximou-se. Repetiu as palavras, ainda incrédulo:
— Abre-te, Sésamo.
E a montanha abriu o coração.
O que viu lá dentro não era apenas ouro. Eram tecidos raros, jarros de especiarias, armas, joias, lembranças arrancadas de muitas vidas. Um acúmulo de destinos interrompidos. A riqueza, pensou ele, também pode ser uma espécie de cemitério.
Ali Babá pegou o suficiente para mudar sua sorte — e apenas o suficiente para não acordar a desconfiança dos deuses que vigiam os excessos. Carregou os burros e voltou para casa com o passo rápido de quem transporta tanto alegria quanto perigo.
A mulher percebeu. Moedas falam, mesmo quando estão quietas.
Mas segredo, em família, é ave arisca. Cassim descobriu. E, descobrindo, desejou mais do que precisava. Aprendeu a senha, dirigiu-se à caverna e encheu os olhos até que o ouro ocupasse o lugar da prudência.
Na hora de sair, porém, a memória fugiu.
A rocha, que abre para quem pede direito, fecha-se para quem confunde ambição com inteligência.
Quando os ladrões voltaram, encontraram-no.
A história poderia terminar aqui, como advertência simples, mas as lendas preferem curvas. Ali Babá, ajudado pela astúcia luminosa de Morgiana, a serva que enxergava além das aparências, enfrentaria a fúria do bando. Um a um, os quarenta seriam vencidos não pela força, mas pela vigilância, pela coragem e por aquela forma de sabedoria que nasce em quem sempre teve pouco a perder.
No fim, a caverna continuaria cheia, porque o mundo nunca deixa de produzir ganância. Mas Ali Babá aprenderia a mais difícil das lições: guardar o segredo é menos trabalhoso do que carregar as consequências dele.
E, dizem, até hoje há quem passe por montanhas distraídas, sussurrando palavras mágicas, acreditando que a pedra abrirá passagem.
Às vezes abre.
Mas a pergunta que a lenda deixa, soprada como vento no ouvido, é outra: o que exatamente você faria se entrasse?