DEUS EM NÓS
Quando a oração vem em forma de pessoa e muda um destino
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É verdade que tenho uma religião, pela qual enxergo a ligação com o sagrado e pela qual me utilizo para a comunicação com o mesmo. Acredito em um Deus único que fragmenta pingos de Sua energia em cada um de nós quando nos permitiu a vida.
É verdade, também, que tenho um olhar científico pautado em uma trajetória crítica que me permite questionar e problematizar minha conexão com o Sagrado. Mas por mais contraditória que vocês achem ser a ótica científica com a espiritual, eu lhes digo que, para mim, tudo faz sentido.
A ciência diz que o universo surgiu em uma grande explosão, conhecida como “Big Bang”, cujo barulho continua reverberando até os dias de hoje e, desta explosão, surgiram os astros que se expandem. O livro do Gênesis, capítulo 1, diz que no princípio Deus criou o céu e a terra. Tempos depois, o livro de João, capítulo 1:1-3, afirmaria que: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. O que há de contraditório entre a versão científica e religiosa da criação? A meu ver, nada. No princípio tudo era o divino em suas formas, que chamo de Deus único. O Universo surge de uma explosão dessa energia. Dessa energia tudo se forma. Nesta energia, “nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma” (Lavoisier).
Até o surgimento do ser humano, foram bilhões de anos terrestres. Mas acredito que cada um de nós, cada ser com sopro de vida, carrega um pouco da Energia do Divino em si. A música de Joan Osborne – “One of Us” (Um de nós) – nos diz: “What if God was one of us? Just a slob like one of us? Just a stranger on the bus Tryin’ to make His way home?” (E se Deus fosse um de nós? Apenas um coitado como um de nós? Apenas um estranho no ônibus, Tentando ir para casa?). Queridos, não tenho pretensão de ser divindade, mas tenho crença no “sentir” Deus está em nós. Por termos sua energia podemos nos conectar, curar e incentivar. Impulsionar. Podemos escolher entre fazer bem, nos carregarmos do que é positivo, ou fazer mal, e nos contaminarmos com o que não é legal.
Quantos de vocês sentem que o outro tem uma energia boa? Que o outro pode ser um ser de luz. Que você gosta de ficar perto porque te incentiva? É claro que o contrário também se sente, e lhe afirmo que, nesses casos, o cuidado deve ser redobrado. Absorver sentimentos, energias e ideias negativas é um veneno.
Voltemos ao lado positivo. Acredito que anjos existam. Acredito que respostas de orações podem vir por eles e mais, acredito que, quando bem conectados, nós somos pontes e servimos como anjos na vida um dos outros, independente de religião. Quantas vezes você pensou em algum problema, rezou, pediu ajuda ao Sagrado e tempos, dias ou mesmo horas depois alguém apareceu e te ajudou, resolveu, ou mesmo te falou algo que você precisava entender ou ouvir naquele momento? Quantas vezes se sentiu pra baixo e alguém veio e de modo muito simples te jogou pra cima? Quantas vezes na sua vida, alguém apareceu de forma despretensiosa, sem cobrança de reciprocidade e lhe ajudou de alguma forma, mudando até mesmo sua vida?
Conheci o caso de um amigo que queria fazer faculdade de enfermagem, mas sabia muito de tecnologia. Ele foi trabalhar em uma assistência técnica de informática. Recebeu bem um cliente que precisava urgentemente de resolução de uma alta demanda com seus computadores. Resolveu rápido o problema. O cliente conversou com ele, o conheceu, e disse: Você precisa estudar tecnologia. Você sabe, entende. Conclusão: o cliente, que eu chamo de anjo, pagou a faculdade do meu amigo. Mudou a vida dele e consequentemente de sua família, sem esperar nada em troca. Depois desapareceu. Meu amigo prosperou. Se o cliente não foi um anjo, não sei o que mais ele foi.
Eu sou professora. Durante muito tempo não enxerguei meu poder de anjo. Eu não paguei faculdade pra ninguém, não sei se resolvi grandes problemas dos outros. Mas um dia, finalmente, percebi que minhas palavras poderiam incentivar pessoas com sonhos. O meu conhecimento e a minha comunicação poderiam mudar a vida daquelas pessoas que, muitas vezes, vem para minha sala após um dia de desilusão, de cansaço e de frustração e esperam apenas uma esperança de dias melhores. Ou ainda, que precisam de um puxão de orelha ou uma bronca para acordarem.
Acredito que o mundo não explodiu até hoje, não sucumbiu, não se acabou, porque ainda temos anjos que, mesmo sem se conhecer ou se reconhecer, exercem sua função. Eu assumi meu poder de anjo na vida de outros, ou pelo menos, na vida daqueles que querem e precisam ser atendidos por nós, anjos terrestres. Respondendo à Joan Osborne, não sei se Deus pode ser um de nós, mas acredito que está em nós e por isso podemos ser anjos. Eu escolhi ser anjo. Não é fácil. Dói e, muitas vezes, eu preciso de mais anjos para me ajudarem. Mas escolhi. Escolho.
Também acredito na manifestação direta do Sagrado. Tive respostas diretas enquanto fazia pesquisa. Mas esta é uma reflexão espiritual e profunda mais para frente, para outra crônica.
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Rachel Gomes de Lima (@rachel.lima.prof), escritora, é doutora em História e professora universitária carioca.