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Amo futebol

Quando a torcida adversária vira abraço

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Sempre me perguntam por que eu gosto tanto de futebol.

A resposta nunca está apenas nos gols.

Ela mora nesses pequenos acontecimentos que parecem insignificantes para quem olha apenas o placar, mas que dizem muito sobre quem ainda somos enquanto humanidade.

Dias atrás, assisti a uma cena que dificilmente sairá da minha memória.

O goleiro Kevin Dawson havia perdido o pai poucos dias antes. Era um jogo importante. Em determinado momento, fez uma defesa. O estádio poderia ter reagido como qualquer torcida costuma reagir diante de um adversário: com silêncio ou frustração.

Mas aconteceu exatamente o contrário.

A torcida rival começou a aplaudi-lo.

Não a defesa.

O homem.

Naquele instante, ninguém enxergava apenas o goleiro adversário. Enxergavam um filho que carregava um luto.

E existe algo profundamente bonito quando a dor consegue suspender a rivalidade.

O filósofo Emmanuel Levinas dizia que o rosto do outro nos convoca à responsabilidade ética. Antes de qualquer disputa, existe um ser humano cuja existência nos interpela. Talvez seja exatamente isso que tenha acontecido naquele estádio. Durante alguns segundos, deixaram de existir uniformes diferentes. Restou apenas alguém tentando continuar vivendo depois de perder quem amava.

Vivemos uma época em que as pessoas se acostumaram a transformar o diferente em inimigo. Discordar parece suficiente para desumanizar. As redes sociais potencializaram esse comportamento, fazendo com que o outro quase nunca seja visto em sua complexidade.

Mas o esporte, às vezes, nos lembra de algo essencial.

O adversário também chora.

Também perde pessoas.

Também sente medo.

Também chega em casa carregando dores que ninguém imagina.

O sociólogo Norbert Elias entendia o esporte como uma forma de organizar nossos conflitos sem destruir o outro. Competimos, disputamos, queremos vencer, mas existe um limite ético que nos lembra de que o jogo termina, enquanto a vida continua.

Naquele estádio, a torcida compreendeu isso antes de qualquer teoria.

Porque há momentos em que o aplauso vale mais do que a vitória.

Talvez o mundo estivesse precisando aprender um pouco com o futebol.

Não com o futebol das brigas, das ofensas ou da violência.

Mas com esse futebol raro.

O futebol que entende que existem dores que não vestem camisa.

E que, diante delas, não existe rival.

Existe apenas um ser humano tentando encontrar forças para continuar.

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