Curta nossa página


Marina Dutra

Quando dizer “sim” para o outro significa dizer “não” para si

Publicado

Autor/Imagem:
Marina Dutra - Texto e Foto

Cuidar da saúde mental nem sempre exige grandes mudanças. Muitas vezes, começa quando aprendemos a colocar limites sem sentir culpa.

Existe uma culpa que acompanha muitas pessoas durante a vida inteira: a culpa de escolher a si mesmas.

Ela aparece quando recusamos um convite porque estamos cansados. Quando dizemos “não” a um favor que não conseguimos fazer. Quando encerramos um relacionamento que nos machuca. Quando deixamos um ambiente que adoece nossa saúde emocional. Quando, pela primeira vez, decidimos que também temos o direito de sermos prioridade.

Curiosamente, é justamente nesse momento que algumas pessoas começam a nos chamar de egoístas.

Mas será mesmo?

Na prática terapêutica, percebo que muitas pessoas aprenderam, desde cedo, que amar significa agradar. Foram elogiadas quando abriram mão das próprias vontades, quando suportaram mais do que deveriam e quando colocaram as necessidades de todos acima das suas. Aos poucos, passaram a acreditar que cuidar de si era uma demonstração de egoísmo.

Não era.

Era apenas um limite que nunca lhes ensinaram a construir.

Quem vive tentando corresponder às expectativas de todos costuma pagar um preço alto. Acumula cansaço, ansiedade, ressentimento e, muitas vezes, perde a capacidade de reconhecer os próprios desejos. Vive disponível para o mundo, mas distante de si mesmo.

É importante entender que colocar limites não é afastar pessoas. É mostrar até onde o outro pode ir sem ultrapassar aquilo que preserva sua dignidade, sua paz e sua saúde emocional.

E existe um detalhe que merece atenção.

Nem sempre as pessoas se incomodam com os nossos limites. Muitas vezes, elas se incomodam porque estavam acostumadas a não encontrar nenhum.

Por isso, quando alguém começa a se posicionar, é comum surgir resistência. Quem sempre teve acesso irrestrito ao seu tempo, à sua energia e à sua disponibilidade pode interpretar essa mudança como frieza, ingratidão ou egoísmo. Na realidade, talvez esteja apenas perdendo um privilégio que nunca deveria ter existido.

Isso não significa agir com indiferença ou deixar de ser generoso. Continuar ajudando quem amamos faz parte de relações saudáveis. A diferença está em compreender que solidariedade não exige autoabandono.

Você pode cuidar dos outros sem adoecer junto com eles.

Pode acolher sem assumir responsabilidades que não são suas.

Pode amar sem aceitar desrespeito.

Pode dizer “não” sem deixar de ser uma boa pessoa.

A maturidade emocional começa quando entendemos que nem toda culpa merece ser obedecida. Algumas culpas aparecem justamente quando estamos rompendo padrões que nos fizeram sofrer durante anos.

Na terapia, muitas pessoas descobrem que o problema nunca foi aprender a dizer “não”. O verdadeiro desafio era acreditar que continuariam sendo amadas mesmo depois de estabelecer limites.

E essa talvez seja uma das maiores libertações do autoconhecimento: perceber que relacionamentos saudáveis não exigem que você desapareça para que o outro permaneça.

Quem realmente ama você pode não gostar dos seus limites no primeiro momento, mas aprenderá a respeitá-los. Quem só se beneficiava da sua falta de limites talvez seja justamente quem mais vai reclamar deles.

………………………

Marina Dutra – Terapeuta Integrativa

Acompanhe a nova temporada de lives no Instagram @sersuperconsciente.
🎙️ Um Olhar Além do Óbvio — quartas-feiras, às 20h.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.