Lucidez
Quando ela entende que é ela
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Existe um momento silencioso quase sempre sem plateia em que a mulher percebe uma verdade estrutural: não há ninguém vindo salvá-la.
Não é amargura. É lucidez.
Durante séculos, narrativas culturais ensinaram que o resgate viria: pelo casamento, pela estabilidade oferecida por outro, pela promessa de proteção. Simone de Beauvoir já denunciava essa pedagogia afetiva que posiciona a mulher como sujeito em espera. Espera pelo reconhecimento, pela validação, pelo amparo.
Mas quando essa espera se dissolve, algo poderoso acontece.
Ela entende que é a única responsável por construir a vida que deseja. E a partir desse entendimento, trabalha como quem não pode terceirizar o próprio destino.
Nas Ciências Sociais, isso dialoga com a noção de agência. Anthony Giddens argumenta que, mesmo inseridos em estruturas que nos limitam, somos capazes de ação transformadora. A diferença é que, para muitas mulheres, essa consciência não é romântica, é necessidade.
Não há herança garantida.
Não há plano B confortável.
Não há salvador.
Há disciplina.
Há foco.
Há uma ética do esforço que não nasce da ambição vazia, mas da compreensão de que autonomia é proteção.
Pierre Bourdieu falava das estruturas que moldam trajetórias. Mulheres sabem que precisam correr duas vezes mais dentro delas. Não por drama, mas por estatística. E quando entendem isso, trabalham com uma intensidade que não é performática, é estratégica.
Aprendi que quem quer casa firme começa pelo alicerce. Não adianta pintar fachada se a base não sustenta. Essa mulher constrói primeiro a estrutura financeira, emocional, intelectual.
E há algo quase revolucionário nessa postura: ela não trabalha duro para provar valor. Trabalha para garantir liberdade.
Porque a mulher que entende que é a própria responsável pelo seu futuro não espera convite para sentar à mesa. Ela constrói a mesa.
E, quando termina, não precisa que ninguém a salve.
Ela já se sustentou.