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Carnaval de palanque

Quando família enlatada agradece e não esquece

Publicado

Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

No meio das alegorias, das fantasias e das disputas judiciais, surgiu uma imagem que dificilmente será esquecida: famílias representadas dentro de latas, como se valores pudessem ser embalados, rotulados e expostos ao ridículo na prateleira ideológica do momento.

A família enlatada agradece.

Agradece, com a ironia amarga de quem foi transformado em caricatura. Agradece pelo desrespeito travestido de crítica. Agradece por ter servido como instrumento de provocação política em um desfile financiado com recursos públicos.

E não esquece.

O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói não é um detalhe folclórico. Quando recursos públicos financiam um enredo que homenageia um presidente em período pré-eleitoral, a discussão deixa de ser artística e passa a ser institucional. Não se trata de censura nem de gosto. Trata-se de impessoalidade no uso do dinheiro do contribuinte.

O Carnaval gera emprego, movimenta comunidades e fortalece cadeias produtivas relevantes. Nada disso está em questão. O que se questiona é a utilização de verba pública para promoção política personalizada em momento sensível do ponto de vista eleitoral. Quando essa linha é ultrapassada, não se discute apenas estética, discute-se regra.

Há ainda um efeito político que não pode ser ignorado. O enredo foi um tiro no pé nas tentativas recentes de aproximação de Lula com segmentos evangélicos e conservadores. Em vez de construir pontes, optou-se pela provocação direta, caricaturando símbolos caros a esses grupos. Ainda que a responsabilidade formal não recaia sobre o governo, o impacto político existe e fragiliza movimentos de moderação que vinham sendo ensaiados.

A reação foi intensa. Houve comemorações políticas, acusações de perseguição, ações judiciais e manifestação do TSE. O episódio saiu da avenida e entrou no campo institucional, onde o impacto é mais amplo do que qualquer nota na apuração.

Na mesma semana, a Receita Federal anunciou a ampliação do cruzamento de dados do Pix para o IR 2026. O sistema de monitoramento financeiro torna-se mais sofisticado e mais abrangente. Cada movimentação deixa registro, cada transação compõe histórico. A justificativa técnica é legítima. O combate à evasão fiscal é necessário.

O problema surge quando a percepção pública é de que a transparência não opera com a mesma intensidade em todas as direções.

O cidadão comum é cada vez mais rastreável. Já quando se trata de estruturas que envolvem poder financeiro, influência política e decisões regulatórias, o processo de responsabilização costuma ser mais complexo e mais demorado.

No exterior, os fatos reforçam essa discussão. O escândalo Epstein continua produzindo efeitos institucionais e levou inclusive à prisão de um príncipe ligado às investigações, atingindo diretamente a imagem da monarquia britânica. O ponto central não é apenas o indivíduo. É o ambiente de relações entre elites políticas, empresariais e sociais que permite que determinadas conexões resistam por anos antes de serem plenamente enfrentadas.

O caso revelou como redes de relacionamento podem criar ambientes de proteção mútua, dificultando a responsabilização e ampliando a sensação de que existem círculos menos vulneráveis à lei.

Não se trata de equiparar situações distintas. Mas há uma semelhança estrutural que merece atenção. Quando finanças, política e regulação se aproximam de maneira excessiva, cresce a desconfiança social.

No Brasil, o ambiente que envolve o caso Vorcaro/Master também suscita questionamentos nesse sentido. O debate não é apenas técnico. É institucional. Quando atores financeiros relevantes mantêm proximidade com decisões regulatórias e ambientes políticos, a exigência por transparência precisa ser proporcional à influência exercida.

Se a resposta é lenta, fragmentada ou pouco clara, instala-se a percepção de tratamento desigual.

Democracias não se enfraquecem apenas por grandes rupturas. Elas se desgastam quando a população passa a acreditar que existem critérios distintos para o contribuinte comum e para grupos com acesso ao poder.

No plano geopolítico, o ambiente também é de reposicionamento estratégico. Macron convida Lula para a Cúpula do G7 enquanto o acordo Mercosul-União Europeia ganha relevância em meio ao avanço do protecionismo. Nos Estados Unidos, discute-se a criação de um Conselho da Paz para Gaza ao mesmo tempo em que se oferecem tropas. O Reino Unido enfrenta constrangimentos institucionais que alcançam a própria família real. O cenário internacional é de tensão crescente e escrutínio ampliado.

Nesse contexto, o Brasil não pode tratar seus próprios episódios como meras disputas narrativas.

O fato mais negativo do Carnaval não foi ideológico nem estético. Foi institucional. A utilização de recursos públicos para promoção política personalizada em período pré-eleitoral compromete a percepção de imparcialidade do Estado. Isso é especialmente grave quando o mesmo Estado amplia sua capacidade de vigilância sobre a vida financeira do cidadão.

O Estado que exige transparência absoluta do contribuinte não pode aceitar opacidade quando o tema envolve poder, influência e uso de recursos coletivos. Não pode relativizar proximidades indevidas. Não pode naturalizar situações que enfraquecem a impessoalidade administrativa. Se há rigor para quem paga imposto, deve haver rigor equivalente para quem exerce poder.

Caso contrário, não estaremos discutindo apenas um desfile controverso.

Estaremos consolidando a percepção de que a lei funciona com pesos distintos. E quando essa percepção se firma, o desgaste não é eleitoral. É institucional.

E isso, ao contrário do Carnaval, não termina na Quarta-feira de Cinzas.

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