Fogueiras da Inquisição
Quando Margarida foi queimada, Bel tinha 12 anos
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Não deveria estar na praça. A mãe tentou impedi-la, mas a aldeia inteira caminhava na mesma direção, como se fosse procissão. E procissões, naquela terra, eram inevitáveis.
Isabel se escondeu atrás dos adultos. Viu primeiro a fumaça, depois a madeira empilhada, e só então a mulher amarrada ao poste.
Reconheceu-lhe o rosto. Margarida fora quem a ajudara a nascer — a mãe sempre contava isso. “Você veio ao mundo pelas mãos dela”, dizia, como quem fala de milagre. E agora aquelas mesmas mãos estavam atadas.
A menina não compreendia. Os homens falavam em pacto, em demônio, em castigo. Isabel só via uma mulher que já lhe afagara os cabelos numa tarde de febre. Uma mulher que lhe ensinara o nome das plantas no caminho do bosque.
Quando a sentença foi lida, a multidão murmurou em uníssono. Alguns choravam. Outros rezavam. Havia também quem observasse com severidade, como se ali estivesse sendo feita justiça necessária.
Isabel não rezava. O fogo subiu rápido. A parteira não gritou como a menina imaginava que alguém gritaria. Havia dor, sim — mas também havia uma estranha firmeza. Um olhar que parecia atravessar a multidão como quem procura alguém específico.
Por um instante, Isabel acreditou que aquele olhar a encontrara.
Naquela noite, não conseguiu dormir. O cheiro de fumaça parecia entranhado nos cabelos, na pele, no travesseiro. Sempre que fechava os olhos, via as chamas subindo e a madeira estalando.
Nos dias seguintes, algo mudou na aldeia.
As pessoas falavam baixo. Evitavam mencionar o nome da parteira. Quando alguém citava a febre ou a colheita, completava: “Agora estamos protegidos.”
Mas Isabel não se sentia protegida.
Começou a observar os adultos com desconfiança. Se tinham sido capazes de queimar Margarida, seriam capazes de queimar qualquer um. Talvez até sua mãe. Talvez ela mesma.
Certa tarde, ouviu duas mulheres cochichando perto do poço.
— Era preciso — disse uma.
— Era — respondeu a outra, sem convicção.
Isabel entendeu, naquele momento, que a verdade não era o que se dizia em voz alta. Era o que se temia em silêncio.
Passou a evitar o bosque. Não por medo de demônios, mas por receio de que alguém a visse ali e inventasse histórias. Aprendeu que olhar demais, saber demais ou falar demais podia ser perigoso.
A infância, que até então era campo aberto, tornou-se território vigiado.
Anos depois, quando já moça, Isabel se tornaria mãe. No dia do parto, não havia Margarida. Outra mulher veio em seu lugar — menos experiente, mais insegura. O trabalho foi longo. A dor, intensa.
Enquanto segurava o próprio filho recém-nascido, Isabel sentiu uma ausência que doía mais do que as contrações.
Percebeu, então, o tamanho do que a aldeia havia perdido. Mas não disse nada. Porque aprendera cedo que certas verdades, quando pronunciadas, também podem virar lenha.
E assim cresceu ; não apenas como mulher, mas como testemunha. Uma testemunha silenciosa de que, sob o céu das fogueiras, o fogo não queima apenas corpos. Queima infâncias. Queima confiança. Queima a coragem de dizer que estavam errados.