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Sentimento adormecido

Quando nomear a dor é um ato político

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Durante muito tempo, dizer que algo doía era tratado como exagero. Sensibilidade excessiva, fragilidade emocional, incapacidade de lidar com a realidade esses rótulos recaem com frequência sobre quem ousa nomear sofrimentos que não se encaixam na narrativa do progresso, da produtividade ou da normalidade social. No entanto, talvez o problema nunca tenha sido ver dor onde não existe, mas finalmente reconhecer aquilo que sempre esteve presente e foi sistematicamente negado.

Nomear a dor não significa inventá-la. Significa retirá-la do silêncio. Sociedades que deslegitimam o sofrimento individual tendem a produzir sujeitos isolados, culpabilizados e adoecidos. Como já apontava Hannah Arendt, a exclusão do sofrimento do espaço público transforma experiências humanas profundas em vivências solitárias, privadas de sentido coletivo. O que não pode ser dito não deixa de existir apenas se torna mais destrutivo.

Esse mecanismo é especialmente visível quando observamos como determinadas dores são tratadas: o assédio é minimizado, o adoecimento psíquico é individualizado, a violência institucional é naturalizada. A crítica não é dirigida às estruturas, mas à pessoa que sofre. Michel Foucault demonstrou como o poder opera ao patologizar o indivíduo e absolver o sistema. Assim, a dor deixa de ser um sinal de falha social e passa a ser interpretada como desvio pessoal.

Nomear o que dói, portanto, é um gesto que ultrapassa o campo íntimo. É um ato político. Ao dar nome à experiência, expõe-se a engrenagem que a produz. Por isso há tanta resistência: reconhecer a dor implica admitir responsabilidade coletiva. Implica questionar ambientes que adoecem universidades, instituições públicas, relações de trabalho e que, paradoxalmente, se apresentam como espaços de racionalidade, mérito e neutralidade.

A recusa em escutar essas dores não é neutra. Ela cobra um preço alto. O aumento dos índices de adoecimento mental e suicídio não pode ser compreendido apenas como questão individual ou clínica. Trata-se de um fenômeno social, profundamente ligado à negação sistemática da experiência humana em sua dimensão afetiva, relacional e vulnerável. Uma sociedade que exige força constante, mas oferece pouco amparo, empurra seus sujeitos para o esgotamento.

Talvez, afinal, nomear a dor não seja sinal de fraqueza, mas de lucidez. Em tempos de anestesia coletiva, reconhecer o que machuca é um gesto de resistência. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de recusar a lógica que o invisibiliza. Dar nome à dor é reivindicar dignidade. É afirmar que aquilo que fere não é exagero, é consequência.

E consequências, quando ignoradas, não desaparecem. Apenas retornam de forma mais cruel.

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