Super Bowl, identidade e poder
Quando o amor se torna linguagem política
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O Super Bowl nunca foi apenas futebol americano. Trata-se de um dos maiores rituais civis dos Estados Unidos um espetáculo que condensa indústria cultural, nacionalismo, mercado e narrativa identitária. O show do intervalo, assistido por centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo, funciona como vitrine simbólica daquilo que a nação deseja projetar sobre si mesma. Em 2026, contudo, o palco produziu algo que ultrapassou a lógica do entretenimento: uma disputa pelo significado da própria ideia de “América”.
Quando Bad Bunny afirmou que a coisa mais poderosa que existe é o amor e evocou uma América plural, ele deslocou o centro da narrativa. Não se tratava apenas de música latina em um evento norte-americano; tratava-se de questionar quem tem o direito de representar a América e qual América está sendo representada.
Historicamente, os Estados Unidos consolidaram para si o monopólio simbólico da palavra “americano”. A filósofa Hannah Arendt já alertava para a força dos símbolos políticos na construção de pertencimento. Nomear é dominar. Quando apenas uma nação reivindica o termo que designa todo um continente, produz-se um gesto de poder. Ao recitar países, culturas e bandeiras diversas, o artista rompeu, ainda que simbolicamente, essa apropriação exclusiva.
Não se trata de ingenuidade estética. A indústria do entretenimento opera dentro de estruturas de mercado altamente lucrativas. No entanto, como argumenta Stuart Hall, a cultura é também um campo de disputa hegemônica. Mesmo inserido no sistema, um gesto artístico pode tensionar
narrativas dominantes. O palco do Super Bowl tornou-se, naquele momento, um espaço de ressignificação.
A afirmação de que “somos todos americanos” carrega implicações geopolíticas. Em um cenário global marcado por políticas migratórias restritivas, discursos nacionalistas e conflitos regionais, lembrar que a América é continental e não apenas nacional é uma intervenção política. É também um recado para dentro: a população latina compõe parte significativa da sociedade norte-americana contemporânea. Invisibilizá-la é ignorar a própria realidade demográfica do país.
Há ainda um elemento mais profundo: a escolha do amor como força política. Pode parecer retórico, mas não é. Em tempos de polarização, o amor surge como categoria ética. O filósofo Axel Honneth argumenta que o reconhecimento é condição fundamental para a dignidade humana. Amar, nesse contexto, é reconhecer a humanidade do outro. E reconhecer é um ato político.
O Super Bowl de 2026 não será lembrado apenas pelo placar ou pelas cifras publicitárias. Ele expôs, em escala global, uma tensão fundamental: quem define o que é América? Quem pertence? Quem fala? Ao levar ao centro do espetáculo uma identidade latina afirmativa e plural, a performance deslocou o eixo da representação.
Talvez o registro mais relevante daquele evento seja este: mesmo nos palcos mais controlados pelo mercado e pelo nacionalismo simbólico, ainda há espaço para disputar significados. E quando o amor é pronunciado como força coletiva não romântica, mas política ele deixa de ser apenas sentimento e passa a ser linguagem de resistência.
Em um mundo que insiste em fragmentar, lembrar que pertencemos a um continente múltiplo pode ser mais subversivo do que parece.