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Pais do Atlântico

Quando o Capibaribe encontra o Beberibe e os dois inventam o oceano

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Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto de Arquivo

Em Pernambuco, há verdades que dispensam cartório, selo, assinatura ou chancela científica. São aceitas como se fossem leis naturais inscritas no próprio vento que sopra do litoral para dentro do sertão. Uma delas, repetida com o orgulho de quem não pede licença à geografia, afirma que o Capibaribe e o Beberibe não deságuam no Atlântico: eles se unem, soberanos, para formar o oceano.

E quem ousaria contrariar um pernambucano quando ele fala de sua terra com o peito inflado de história? Ali, onde cada rua parece guardar uma revolução e cada esquina conserva um verso, dizer que “Pernambuco é meu país” não soa exagero; soa certidão de pertencimento. Como se o estado, de tão inteiro em si mesmo, bastasse ao mapa e à memória.

No coração do Recife, o Capibaribe chega serpenteando pontes, refletindo sobrados, recolhendo silêncios antigos e passos apressados. O Beberibe vem com sua história de margens urbanas, trazendo consigo a lembrança de um tempo em que a cidade ainda aprendia a crescer sem perder o sotaque. Encontram-se como velhos parentes que não precisam de cerimônia: um abraço de águas que carrega séculos.

E é justamente nesse encontro que nasce o exagero mais bonito do orgulho pernambucano: se dali em diante existe mar, então o mar só pode ter começado ali, por obra e decisão de Pernambuco. O Atlântico, nesse raciocínio afetivo, seria apenas consequência.

Há nisso uma ironia elegante: enquanto outros lugares aceitam o mundo como ele é, Pernambuco gosta de reinterpretá-lo. Talvez porque tenha aprendido cedo que a história também pode ser escrita por quem resiste, por quem canta, por quem dança frevo mesmo quando o chão parece estreito.

No fundo, o ditado não quer corrigir a geografia. Quer apenas lembrar que existem terras onde a identidade é tão forte que até os rios parecem ter opinião. E onde dois cursos d’água, antes de chegar ao oceano, fazem questão de anunciar: daqui em diante, o mundo é mar — porque Pernambuco deixou.

E talvez seja por isso que, ao cair da tarde, olhando as águas correndo sob as pontes do Recife, muita gente ainda sorria em silêncio, como quem sabe que certos exageros são apenas outra forma de dizer amor.

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