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PLATAFORMA 21

QUANDO O ÔNIBUS CHAMA, O PASSADO RESPIRA

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

O cheiro de hospital não sai fácil. Ele gruda no cabelo, na roupa, na pele, como se o corpo virasse um corredor branco. Ela veio direto de lá. Trazia no pulso a marca do adesivo de visitante, um retângulo mais claro onde a cola arrancara um pouco dos pelinhos do braço. Os olhos estavam secos de tanto chorar. Quando choro passa do ponto, vira outra coisa, uma secura irritada que arde sem cair, um aperto na garganta.
Na sala de espera, horas antes, alguém dissera “entre a vida e a morte” com a tranquilidade de quem aprendeu a dizer isso como rotina. A mãe dela estava num leito, ligada a máquinas que apitavam com um ritmo sinistro. Inconsciente na maior parte do tempo. Às vezes abria os olhos sem ver, mexia a boca como se engolisse palavras que já não conseguiam subir. Ela segurara aquela mão fria e pensara, sem coragem de admitir: se minha mãe morre sem eu saber o que é verdade, eu fico órfã de história.
A rodoviária parecia um insulto a tudo aquilo. O barulho era o oposto da UTI: vida derramando, gente correndo, malas batendo, anúncios metálicos chamando destinos como quem chama números. O cheiro era café requentado, gordura, chuva antiga nos casacos dos outros. Ali ninguém “ficava”. Todos “iam”. E, naquele dia, era ele quem ia.
Ela o viu com uma mochila pequena e uma mala média, de rodinhas que faziam um som seco no piso. Estava sentado perto de uma coluna, como se escolhesse um lugar em que pudesse desaparecer sem de fato sumir. Olhava para o painel de partidas, mas não lia. Segurava o bilhete na mão como quem segura um diagnóstico.
O pai da memória dela tinha trinta e poucos anos e existia em fotografias antigas, antes de a mãe decidir que fotografias também eram uma afronta. O pai real, ali, parecia mais velho do que a idade. Não era a velhice bonita de quem viveu muito, mas um cansaço de quem perdeu o jeito de estar presente.
Ele a viu quando ela se aproximou e levantou depressa demais. Essa prontidão excessiva foi, para ela, a primeira prova de culpa. Quem não deve nada não se apressa.
— Oi — ela disse. A palavra saiu pequena, quase neutra, como se “pai” fosse uma peça de roupa que não servia mais.
— Oi… — ele respondeu, com um atraso que parecia pedir permissão para existir. Os olhos percorreram o rosto dela como quem procura um resto de oito anos num corpo de dezenove. — Você… você tá diferente.
— Você também — ela devolveu. Sem acusar, sem carinho. Um inventário.
Ele apontou duas cadeiras vazias.
— Vamos sentar?
Ela assentiu. Sentaram. Entre eles, o espaço útil das coisas: o bilhete dele, o celular dela, um copo de café que ele comprara e não beberia. O painel piscou destinos. Um ônibus foi chamado. Alguém gritou um nome distante. A rodoviária preenchia cada silêncio com vida alheia.
— Você veio do hospital? — ele perguntou, e a pergunta já era uma resposta. O cheiro nela denunciava. E o rosto.
Ela não gostou de ele saber. Parecia uma intimidade indevida.
— Vim — disse. — Ela tá… — e a palavra “mãe” veio com um peso que a rodoviária não conseguia engolir. — Ela tá no fim.
Ele fechou os olhos por um instante curto, como um homem que recebe um golpe e tenta não demonstrar.
— Eu soube ontem, teu tio me disse — ele disse.
— Soube e tá indo embora — ela falou, e aí a neutralidade se rompeu. — Você tá indo embora agora.
Ele olhou para a mala, depois para o bilhete.
— Eu ia viajar — ele corrigiu, como se “viajar” fosse mais decente do que “fugir”. — Já tava…
— Já tava comprado, eu sei. — Ela cortou. — Tudo na sua vida parece já estar comprado antes de você decidir me olhar.
A frase veio mais dura do que ela queria. Mas era isso: ela atravessara a cidade com o cheiro de hospital grudado e encontrara o pai prestes a embarcar para longe, como se o mundo fosse um lugar de onde ele pudesse sempre sair pela porta dos fundos.
Ele não se defendeu com indignação. Isso, de algum modo, piorava.
— Eu não tô dizendo que eu tô certo — ele disse baixo. — Eu só…
— Você sempre “só” alguma coisa. — Ela apertou a alça da mochila no ombro. — A mãe tá inconsciente quase o tempo todo. E quando abre o olho, parece que tá longe. Eu falei com ela, eu… eu pedi pra ela me dizer. Pra me dizer por que você sumiu. Pra me dizer a verdade. E ela não diz. Ela não pode. Ela talvez morra sem dizer.
Ele engoliu seco. O barulho da rodoviária, organismo vivo e indiferente em volta deles, cresceu, como se o mundo se incomodasse com aquela conversa.
— Eu não devia falar da sua mãe assim… nesse momento — ele disse.
— “Assim” como? — ela retrucou. — Como se ela fosse humana? Como se ela tivesse feito escolhas?
Ele passou a mão no rosto, um gesto de exaustão. Depois encarou o bilhete outra vez.
— Eu vou pra outra cidade — ele disse. — Trabalho. Um contrato. Eu… eu não tô bem aqui. Me separei.
— Você não tá bem aqui desde sempre — ela respondeu, e logo se arrependeu, mas já era tarde.
Um anúncio cortou o ar: “Atenção, senhores passageiros com destino a…” A voz metalizada repetiu plataforma e horário. Quando terminou, o silêncio entre eles ficou mais incômodo.
— Por que você veio então? — ela perguntou. — Por que aceitou me encontrar hoje?
Ele olhou para ela como quem tenta escolher um tipo de verdade que caiba em poucas frases.
— Porque você me mandou mensagem — ele disse. — E porque… porque eu pensei que talvez fosse a última chance de você… de você não ficar com uma história só.
Ela sentiu um arrepio. Não era consolo; era perigo. “Uma história só” era exatamente o que ela tinha.
— A mãe sempre disse que você não prestava — ela falou, e a frase tinha o gosto de slogan herdado, repetido tantas vezes que já não parecia fala dela. — Que você nunca foi presente. Que você não queria. Que você… — Ela parou. — E eu acreditei. Porque era o que tinha.
Ele não disse “mentira”. Não disse “ela inventou”. A omissão foi deliberada. Ele parecia pisar em terreno minado.
— Eu não era presente — ele admitiu. — Eu era irresponsável. Eu sumia. Eu bebia. Eu achava que dava pra consertar tudo depois, com conversa. — Ele respirou fundo. — Isso é verdade. Ela não inventou essa parte.
— Então pronto — ela disse, com uma raiva que agora tinha tristeza dentro. — Por que eu tô aqui?
Ele sustentou o olhar.
— Porque isso não explica tudo — ele falou. — E porque agora… agora sua mãe não tá em condição de… de responder. E eu não quero que você carregue o resto da vida uma versão que te prende.
Ela inclinou a cabeça.
— Me prende como?
Ele olhou para os lados. Hábito antigo. Não paranoia, mas sobrevivência.
— Te prende num ódio que não é seu — ele disse. — Te prende numa lealdade cega. Te prende numa ideia de que a vida é limpa: um bom e um ruim. — Ele fez uma pausa curta. — Te prende na possibilidade de você repetir isso com alguém. Sumir. Cortar. Simplificar. Porque foi assim que você aprendeu a sobreviver.
Ela sentiu a frase bater num lugar de dentro que ela evitava. As dúvidas “sobre a vida” não eram apenas sobre faculdade. Eram sobre afeto. Sobre permanência. Sobre o medo de amar e depois ser abandonada — ou abandonar primeiro.
— Eu não sou igual a você — ela disse, mais para se convencer do que para atacá-lo.
— Eu espero que não — ele respondeu, e não havia ironia; havia uma espécie de pedido.
Ela apertou o pulso onde ficara a marca do adesivo do hospital.
— Por que você teve medo de chegar perto de mim? — ela perguntou, e a pergunta saiu com um cuidado novo. — Eu era tão menina. Medo do quê?
O rosto dele endureceu, como se o corpo lembrasse antes da mente.
— Não era medo de você — ele disse, quase rápido. — Era medo do que podia acontecer se eu encostasse em você. Medo do tipo de coisa que vira papel. Vira número. Vira… uma história oficial.
— Você tá falando de polícia? — ela perguntou, e a palavra pareceu suja ali, entre café e anúncios.
Ele não respondeu diretamente. A evasiva foi a confirmação.
— Teve um dia — ele começou — perto do seu aniversário. Eu fui até a escola.
Ela franziu o cenho. Aquilo não existia na narrativa da mãe.
— Eu não sabia disso.
— Eu sei. — Ele respirou. — Eu cheguei lá e tinha gente me esperando. Um homem com pasta. Um papel pra eu assinar. Eu entendi que… que eu tinha sido transformado num risco. Num assunto.
Ela sentiu o estômago virar. A rodoviária, por um instante, pareceu menor do que a UTI.
— E você sumiu.
— Eu fugi — ele corrigiu. — Eu fui covarde. E covardia não vira virtude só porque tem justificativa.
Ela ficou imóvel. O ódio que ela aprendera a carregar exigia um vilão inteiro. Mas ele estava oferecendo algo pior: um homem falho, assustado, com o cenho cansado, sem qualquer sombra de heroísmo. Isso não dava alívio. Dava confusão.
— Então você me deixou com uma versão só — ela disse, devagar, como se pronunciasse uma sentença contra ele e, ao mesmo tempo, contra si. — Você deixou ela falar sozinha. Você deixou eu crescer achando que… que eu não valia o esforço.
Ele baixou os olhos.
— Eu deixei — ele disse. — E isso é imperdoável também. Você foi dano colateral.
A palavra “colateral” era feia. Mas a feiura tinha uma honestidade que queimava.
No painel, a linha do ônibus dele piscou. Plataforma 21. Embarque em poucos minutos. O mundo apertava o tempo.
— E você vai embora agora — ela repetiu. — Enquanto ela tá… — ela não quis dizer “morrendo”, mas era isso.
Ele olhou para o bilhete como quem olha para uma decisão antiga. A mão dele tremia, pouco, controlada.
— Eu não consigo entrar em hospital — ele disse. — Eu entrei uma vez, há muitos anos. Eu senti o cheiro… — ele apontou, quase sem querer, para a roupa dela. — E eu… eu travei. Eu não tô te pedindo compreensão. Eu só tô dizendo o que é.
— Você sempre diz “o que é” depois que já fez — ela respondeu. E então, com uma sinceridade bruta: — Eu vim aqui porque eu preciso saber. Porque se ela morrer… eu fico com a história dela como se fosse a única verdade. E eu não sei mais se eu confio nisso. Eu odeio pensar isso. Eu odeio ter que desconfiar dela agora.
Ele fechou os olhos. A rodoviária anunciou outra plataforma. Um ônibus arrancou, e o motor vibrou no chão.
— Eu não quero que você odeie sua mãe — ele disse. — Nem que você transforme isso numa caça às bruxas. — Pausou. — Eu também não quero… não quero falar dela num momento em que ela não pode se defender.
— Ela passou a vida falando de você quando você não tava — a filha disse, e a frase veio com um amargor quase infantil. — Agora você quer ser “justo”?
Ele abaixou a cabeça, aceitando o golpe.
— Você tem razão — ele disse. — Mas tudo tem limite. Porque o que ela fez… — ele parou. A palavra não saía. — Porque se eu disser do jeito errado, eu te arrasto pra um lugar que você não merece.
Ela percebeu que o segredo não era apenas mistério bobo. Era peso. Era medo. Era uma coisa que ainda tinha poder sobre ele.
Ele tirou do bolso um envelope pardo, amassado nos cantos, fechado com fita. Não tinha nome.
— Toma — ele disse, e colocou entre eles como se fosse uma peça de evidência e, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas que não ousava ser pronunciado. — Não abre agora se não quiser. Não precisa abrir hoje.
Ela olhou como se fosse uma armadilha.
— O que é isso?
— Não é prova de nada — ele respondeu, como se previsse a acusação. — Não é chantagem. Não é… — ele respirou — não é vingança. É só possibilidade. Tem um endereço aí. Um telefone antigo. Um nome. Tem coisas que… que talvez te ajudem a entender que não era tão simples. Que eu não fui só “o cara que não presta” e pronto. Eu fui isso também, mas não só isso.
Ela não tocou.
— Você tá me pedindo pra investigar minha própria vida enquanto minha mãe tá no leito de hospital?
— Eu tô te oferecendo uma saída pra você não virar adulta carregando um ódio emprestado — ele disse. — E pra você não tomar decisões sobre amor, sobre gente, sobre si mesma, com base num buraco.
Ela sentiu as pernas pesarem. Pensou na mãe inconsciente, na boca mexendo sem som. Pensou no pai ali, prestes a embarcar, oferecendo um envelope como quem joga uma bóia e foge.
— Você vai sumir de novo? — ela perguntou, e a pergunta saiu quase criança.
Ele engoliu.
— Eu tenho seu número — ele disse. — Se você me bloquear, eu vou entender. Se você me chamar, eu… eu apareço. Do jeito certo. — E, como se isso fosse um esforço físico: — Eu não prometo por orgulho. Eu prometo porque eu tô cansado de ser essa pessoa.
Ela pegou o envelope, enfim, e sentiu a aspereza do papel na ponta dos dedos. Enfiou na mochila sem abrir. Não era confiança; era necessidade. Era o direito de não ficar apenas com a versão de alguém que talvez não acordasse mais.
O painel piscou: “Plataforma 21 — embarque imediato”. A rodoviária chamava o pai como chama todos: sem espera, sem drama, sem poesia.
Ela se levantou.
— Eu vou voltar pro hospital — ela disse. — Porque alguém tem que ficar.
Ele levantou também, rápido demais, como sempre.
— Eu sei.
Ela hesitou. Havia uma frase que ela queria dizer e não queria. E, no fundo, havia outra: “vem comigo”. Mas ela não deu a ele essa saída fácil.
— Não faz esse negócio de aparecer só quando o mundo tá acabando — ela disse, com a voz firme de quem tenta criar uma regra para não desabar. — Se você for aparecer, aparece. Se for fugir, foge de uma vez e não volta.
Ele assentiu como quem recebe uma ordem justa.
— Tá.
Ela deu dois passos, parou, e virou o rosto.
— Você vai viajar mesmo?
Ele olhou para a mala.
— Eu preciso — ele disse. E depois, sem teatralidade, como quem admite a própria miséria: — Porque eu ainda sou meio covarde. Mas… eu não vou sumir.
Ela não respondeu. Seguiu em direção à saída, misturada ao fluxo de gente que não sabia de UTI, de “entre a vida e a morte”, de mães inconscientes, de pais ausentes. Antes de atravessar a porta, olhou para trás.
Ele ainda estava lá, com a mala ao lado, como quem não tem coragem de andar. Não acenou. Não chamou. Apenas ficou um segundo a mais, olhando para ela, como se tentasse aprender, tarde demais, o que é permanecer.
Do lado de fora, o sol do fim de tarde bateu no rosto dela com uma indiferença cruel. Ela respirou e sentiu, por baixo do cheiro de hospital, o ar sujo da cidade. Apertou a mochila contra o peito, onde o envelope agora pesava como uma pergunta.
E, no caminho de volta, entendeu uma coisa que não era perdão nem condenação: algumas histórias só começam a ser suas quando a pessoa para de repetir a versão que recebeu e aceita o trabalho sujo de descobrir — mesmo que doa, mesmo que seja tarde, mesmo que não haja mais quem responda.

…………………….
Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor do Café Literário, juntamente com Eduardo Martínez. Poeta e contista, além de advogado e professor universitário no Rio de Janeiro.

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