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Apocalipse

Quando os deuses ajustaram o ponteiro

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Autor/Imagem:
Paulus Bakokebas - Foto Editoria de Artes/IA

O Relógio do Apocalipse marcava segundos. Não minutos — segundos. A meia-noite, esse velho e pontual arauto do fim, respirava no cangote da humanidade. Nas grandes capitais, generais dormiam com um olho aberto; nos mercados, cifras piscavam como eletrocardiogramas instáveis; nos parlamentos, discursos soavam ocos, como orações ditas por quem já não acredita no próprio deus.

Foi então que eles se reuniram. Não no céu — essa ideia é humana demais —, mas num lugar fora do tempo, onde símbolos ainda tinham peso e metáforas não haviam sido privatizadas. Vieram porque foram chamados. Não por fé, mas por desespero. Os deuses existem enquanto alguém ainda os imagina necessários.

Zeus chegou irritado, com seus raios obsoletos, reclamando que ninguém mais tem medo do trovão — só de sanções econômicas. Odin apareceu silencioso, trazendo notícias colhidas por corvos exaustos de sobrevoar guerras repetidas. Xangô bateu o machado no chão e perguntou, com ironia, onde haviam escondido a justiça. Ela não atendia mais nem pelo nome.

Havia muitos outros. Deuses antigos, novos, reinventados. Alguns nasceram em desertos, outros em florestas, alguns em livros, outros em telas. Todos criados à imagem e semelhança daquilo que o homem julgou faltar em si mesmo.

A pergunta era simples e insolúvel: o que fazer para impedir a hecatombe, se os homens já não escutam nem aos próprios semelhantes?

Prometeu, sempre imprudente, sugeriu devolver o fogo — não o das armas, mas o da consciência. “Roubar outra vez”, disse. “Reacender o constrangimento.” Foi lembrado de que o último presente havia sido usado para forjar bombas.

Atena propôs algo mais radical: confundir as certezas. Espalhar dúvida onde hoje só há convicção cega. Fazer com que líderes acordassem, por uma única manhã, incapazes de distinguir aliados de inimigos, verdades de slogans. Um colapso temporário da arrogância.

Anansi, o deus-aranha, riu. Disse que o problema não era falta de sabedoria, mas excesso de narrativa. “Talvez seja hora de embaraçar as histórias”, sugeriu. Emaranhar discursos, cruzar mentiras, até que nenhuma propaganda consiga andar sozinha sem tropeçar em si mesma.

Gaia, cansada, falou pouco. Disse que poderia simplesmente parar de cooperar. Um pequeno ajuste nos ciclos, um lembrete de que nenhuma potência negocia com a física. Os deuses concordaram: seria eficaz, mas o preço recairia, como sempre, sobre os que menos decidiram.

No fim, decidiram por algo quase ridículo de tão simples — e por isso mesmo, improvável. Resolveram retirar-se parcialmente.

Não desaparecer, mas silenciar os símbolos que legitimam a destruição. Nenhum deus aceitaria mais ser invocado em nome de fronteiras, mercados ou mísseis. Nenhuma bandeira teria respaldo divino. Nenhuma guerra poderia se chamar sagrada sem eco, sem trovão, sem mito que a sustente.

Restaria ao homem apenas a própria responsabilidade, nua e sem metáforas.

O Relógio não voltou atrás. Não é assim que o tempo funciona. Mas, por um instante quase imperceptível — um soluço no ponteiro —, a meia-noite hesitou. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, o fim deixou de ser vontade dos deuses
e voltou a ser escolha dos homens.

E isso, convenhamos, sempre foi mais assustador.

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