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Olhar interior

Quaresma como período de trabalho com a Sombra

Publicado

Autor/Imagem:
Marco Mammoli - Texto e Imagem

Quando se fala em Quaresma dentro do cristianismo, geralmente se fala de “pecado”, “penitência”, “renúncia”. Em linguagem ocultista e psicológica, podemos traduzir isso como “o tempo de trabalho com a Sombra”. O nosso encontro daquilo que existe em nós, mas que reprimimos, negamos, tememos ou mal interpretamos. Sombra é tudo aquilo que não conseguimos reconhecer facilmente em nós mesmos. Desde o que julgamos ser ruim, indigno ou vergonhoso como os sentimentos de raiva, inveja, desejo de poder, impulsos sexuais, etc. Outras vezes, são potenciais positivos não vividos; como a coragem, criatividade, firmeza; por medo ou repressão. Pela visão “religiosa” ela foi, e é, chamada de inclinação aos pecados da carne ou do espirito. Numa visão ocultista mais madura, essas forças não são “para serem destruídas”, mas para serem vistas, compreendidas e integradas, de forma que se tornem energia a serviço da consciência.

A Quaresma tornou-se o cenário adequado do encontro com a Sombra pois é, historicamente, um período de retração, de silêncio relativo e de restrições como o jejum e a abstinência. Nada mais propicio ao ocultista para trabalhar com ela, pois existirão menos distrações externas, tais as “anestesias da carne” como o sexo a comida e entretenimentos. É nesse momento de recolhimento e foco que sobem à superfície da consciência as angústias, culpas, ressentimentos, desejos etc. Sentimentos que tentamos ocultar no cotidiano. Ou falta-nos tempo e ambiente para esse trabalho.

O rito coletivo da Quaresma, mesmo quando seguido de forma simples e religiosa, funciona quase como um “retiro psíquico” em massa. Um momento que favorece introspecção e confronto com nossos conteúdos internos. Geralmente, em várias tradições religiosas e ocultistas , nesses quarenta dias, existem recomendações que proíbem acender velas para trabalhos ocultos em geral, evitar consagrações e operações de evocação nesse período e até suspender certos rituais até a Páscoa. As justificativas podem variar, mas se conectam a existência de um campo psíquico denso e ambivalente.

Do ponto de vista energético e simbólico, a Quaresma é um período carregado de sentimento de culpa, dor, arrependimento, lembrança de sofrimento (Paixão de Cristo) e um profundo foco na morte. Imagine milhões de pessoas, ao mesmo tempo, rezando, chorando, fazendo promessas, revivendo traumas, sofrendo e pedindo perdão. Isso cria uma Egrégora de grande intensidade emocional. Pela tradição devocional, esse é um tempo de graça e de piedade. Para o ocultista, é também um período turbulento, cheio de projeções, medos, imagens de demônio, inferno, castigo. Alguns preferem não “alimentar” nem “navegar” ativamente nesse mar psíquico, o recolhimento passa a ser a opção mais sensata e respeitosa à essa imensa egrégora. Logo, o ato de acender uma vela, não importa o rito, pode funcionar como antenas num período em que o “céu emocional” do planeta está carregado.

Realizar práticas; como velas, rituais, evocações; em um tempo de expiações da “grande culpa da humanidade” e de discursos fortes sobre “demônio” e o “bem e o mal” facilita confundir conteúdos internos (sua própria raiva, inveja, desejo de vingança) com “entidades externas”. Além de atrair formas-pensamento densas criadas por centenas de anos de medo religioso. Dar uma pausa ritual na Quaresma é, em muitos casos, uma forma de respeitar o processo coletivo voltado para arrependimento e luto, e evitar misturar essas energias com operações de magia, que exigem mente clara e intenção estável. A Quaresma é um convite para virar a lanterna para dentro, sair do foco “para fora” e voltar o foco “para dentro”.

Para muitas tradições ocultistas a “proibição” de rituais externos é uma forma de nos conduzir a trabalhar nossa Sombra. Em vez de acender uma vela para obter algo, “acender” a consciência sobre nossos medos, apegos, vícios emocionais. Do ponto de vista esotérico, a culpa só é útil se leva a responsabilidade de Assumir o feito, a Repará-lo (se possível) e a Transformação. Não reincidir no feito já é um sinal positivo. Agora, se a culpa apenas paralisa, virou prisão, não purificação. Na linguagem da alquimia espiritual, a Quaresma corresponde, em grande parte, a um tempo de Nigredo onde as ilusões são questionadas, o orgulho religioso é ferido e o fiel é confrontado com sua mortalidade e falhas. A chegada da Páscoa traz a Ressurreição, simbolicamente a passagem Albedo/Rubedo. Onde, após enfrentar a Sombra (morte), algo novo emerge. Para o ocultista, isso significa usar a Quaresma como etapa de desconstrução, e ver o que em si é máscara, onde a “espiritualidade” vira vaidade e ver onde o “discípulo da luz” ainda é movido por medo, desejo de controle, fuga da vida.

Ao unir Quaresma e trabalho de Sombra, você não está “cristianizando” o ocultismo nem “profanando” a Quaresma. Mas, está reconhecendo que ritos religiosos tradicionais já contêm, em sua estrutura, sabedorias ancestrais e emocionais profundas e usar o calendário coletivo como “apoio” facilita a realização da introspecção quando milhões estão voltados a temas de morte, culpa, conversão. E a recomendação de “não acender velas” em certos círculos; não é medo supersticioso apenas de “demônios soltos”; é um cuidado com o tipo de energia disponível e com o risco de confundir Sombra interna com forças externas. É um lembrete de que, em certos períodos, o trabalho mais seguro e mais fecundo não é o que muda o mundo lá fora, mas o que ilumina e reorganiza o mundo aqui dentro. Boa quaresma!

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Marco Mammoli, Mestre Conselheiro e membro do conselho do Colégio de Magos e Sacerdotisas. Você pode entrar em contato com o Colégio dos Magos e Sacerdotisas através da Bio, Direct e o Whatsapp: 81 997302139.

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