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Um manicômio chamado Literatura

Quase normais e outros escritores

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Tenho grandes amigos, gente quase normal. Não raro, faço referência a um ou outro nos meus contos, crônicas e romances. Digo até que é o tipo ideal de pessoa para ser retratada, ainda mais porque são críveis.

— Edu, e desde quando o Valfredo é normal? E aquele psicopata do Aldo? Ah, para né!

Essa fala é do Pedro, um dos meus chegados que se enquadram dentro da dita normalidade aceitável. Valfredo e Aldo são dois dos meus personagens, sendo o primeiro do conto “Valfredo, o gigolô”. Já o Aldo, figura central de “A carta e a urna”, poderia facilmente ocupar um lugar em algum manicômio judiciário.

— E aí, Edu, quero ver você sair dessa!

Olha o Pedro aí de novo. Sempre provocativo.

Volto a afirmar que os melhores personagens são baseados em pessoas normais. E são! E aí é que vem a grande sacada, pois o que mais surpreende é a improbabilidade da insanidade, mesmo que momentânea, dos certinhos. Talvez até esse seja o caso de você que está me lendo.

Mas quero falar dos escritores, classe da qual faço parte. E obviamente que possuo amigos dessa raça, sim, repleta de insanos. E, apesar da proximidade, não pouparei ninguém, pois não nasci com cadeado nos lábios.

Que tal começarmos pelo J. Emiliano Cruz, o Jota? Se ele é maluco? Completamente! No entanto, não a ponto de precisar usar uma camisa-de-força, já que a loucura dele é praticamente toda voltada à literatura. E quem ganha com isso são os leitores, que viajam nas tramas mais esdrúxulas e inusitadas do autor. Por isso, meu amigo, aconselho a não tentar prever o desfecho dos contos do sujeito, pois a mente do Jota parece funcionar como os dribles do Garrincha: improvável

E o Saulo Braga? Poeta favorito do Chefe (José Seabra), ele foi meu colega de Banco do Brasil há muitos anos no Rio de Janeiro. Figura divertidíssima e das mais amalucadas que conheço. Ultimamente, ele tem arriscado na prosa, pois resolveu contar histórias vividas e, até então, guardadas em algum ponto obscuro da sua mente. Duvida? Então, olha essa:

— Edu, vou te contar, estou vindo lá do hospital porque quebrei duas costelas. Tomei aquele tombo de velhinho. E o engraçado é que tomei o tombo e me lembrei de mais quatro histórias.

— Duas costelas? Eita! Que loucura, Braga! Se com duas costelas quebradas você se lembrou de quatro histórias, imagina se tivesse quebrado as vinte e quatro.

Agora, um pouquinho da poetisa Simone Magalhães. Ah, essa aí é acometida de picos de insanidade, seja na madrugada, seja quando ninguém espera. E lá vai a Simone pegar um caderno e uma caneta para despejar emoções. O resultado encanta, é verdade, e faz o poema martelar a cabeça do leitor durante uma semana inteira, contando as duras manhãs de segunda-feira, quando a realidade tenta trazer o sujeito de volta para o planeta Terra.

Outro apaixonado pelas horas impróprias é o Daniel Marchi, que me manda mensagens despudoradas às duas da madrugada:

— Edu! Tá acordado?

Tento fingir que ainda estou sonhando com a Dona Irene, que está ao meu lado, talvez sonhando comigo. Bem, espero, se bem que sonhos são sonhos. Nova mensagem:

— Edu! Preciso te mostrar uma coisa.

Por que ele faz essas coisas comigo? Eu, que não sou curioso, sou acometido desse mal justamente àquela hora.

— Oi, Dan! Diga lá!

O meu amigo me manda um conto maravilhoso, que me deixa inebriado, não vou mentir, um bocado enciumado. Gente, como é que o pilantra tem essas ideias geniais? Que inveja! Mesmo assim, lá vou eu mandar palavras escancaradamente teatrais:

— Caramba, Dan! Você é o melhor!

— Você acha mesmo, Edu?

Trocamos mais algumas palavras, o Dan adormece com o ego lá nas alturas. E eu, com a insônia, enquanto a Dona Irene parece ainda sonhar aqui ao meu lado. Comigo?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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