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Janete, a sobrevivente

Que nem Leila, mas sem sair n’O Pasquim

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Janete não passou incólume pela revolução sexual. Tão pioneira quanto Leila Diniz, mas sem a mesma fama, defendeu a liberdade feminina de amar. Transgrediu anonimamente, longe das páginas controversas de O Pasquim. E, pasmem, antes mesmo de Leila, de biquíni, desfilar toda a gravidez na praia de Ipanema, Janete já havia feito isso um ano antes, justamente enquanto o país se dividia entre torcer pelo tricampeonato da Seleção Brasileira e lutar contra a terrível Ditadura Militar.

Desde então, o tempo voou para uns, arrastou-se para outros, parou no meio do caminho para uma parcela e, infelizmente, ficou lá atrás para quem ousou ir de encontro ao regime. Seja como for, Janete, aos trancos e barrancos, sobreviveu. E hoje, beirando os 80 anos, poucos reconhecem na senhora a mulher transgressora dos idos de 1970.

Viúva, desfruta da aposentadoria ao lado da Elza, gata vira-lata de belos olhos alaranjados, enquanto se debruça sobre um livro de contos ou de poemas. De vez em quando, arrisca-se sobre um romance de algum escritor que descobre em bate-papos com amigos no café da esquina, onde costuma ir às quartas-feiras.

Vida pacata de quem não espera reviravoltas mirabolantes. Mesmo assim, duas ou três vezes ao ano, Janete ainda consegue escrever boas histórias no seu diário, quase adormecido por falta de assunto. Uma delas aconteceu recentemente no apartamento do João, cujo pai um dia esteve no ventre de uma mulher que ousou, há muito tempo, trajar biquíni com aquele barrigão de fora.

— Vovó, a senhora veio!

— E não era pra vir, João?

— Claro que era, vovó! Vem cá que quero apresentar os meus amigos pra senhora.

Janete acompanhou o neto até a varanda, onde alguns jovens sorridentes conversavam trivialidades. Não tardou, já acomodada em confortável num sofá ladeada de duas moças de seus 20 anos, aceitou de bom grado compartilhar a cerveja na mesa ao centro. E a conversa fluía agradavelmente até que o João fez questão de apresentar para a avó o Renato, um convidado que acabara de chegar.

— Vovó, este aqui é o Renato, o guru da galera.

— Guru?

— Sim, senhora. É como me chamam, mas eu prefiro ser conhecido como aquele que enxerga adiante.

A idosa observou aquele rapaz, que mal acabara de sair das fraldas, com o semblante carregado de uma prepotência incomum até mesmo para os deslumbrados pelos próprios feitos. Mas por que um moleque daqueles parecia ser tão reverenciado por todos?

Durante a quase uma hora seguinte, Janete presenciou o inacreditável. Não somente o neto, como também as duas garotas ao lado, bem como todos os outros presentes se sentaram ao redor do tal guru para vê-lo adivinhar as coisas mais triviais sobre todos.

Cansada daquele teatro mambembe, Janete pediu licença ao grupo, pois iria embora. Todavia, Renato, o tal guru, ao tocar a sua mão, fechou os olhos, deu dois ou três tremeliques no corpo franzino e, ao retornar do suposto transe, começou a dizer coisas sobre a vida da avó do João.

— Meus amigos, estamos aqui diante de uma mulher que honrou os pais, sempre foi recatada, obediente aos bons costumes, do tipo fiel até que a morte os separe…

Bem, apesar da enxurrada de elogios improváveis, ninguém ousou contestar o veredicto do guru. Até mesmo a Janete lhe sorriu, fez cara de espanto, apertou a mão do sujeito e, já de saída, foi questionada pelo neto.

— Vovó, não te falei que ele não erra uma?

— É verdade, João. O seu amigo guru erra todas!

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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