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Velório

Quem morreu?

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

No Brasil quase tudo se torna uma boa história.

Caixão no meio da rua, homem sendo velado por engano… outro dia eu conto essa.

Adoro a franqueza e humor das minhas amigas e uma delas tem histórias hilárias. Final da pandemia, a ansiedade para ter de volta a normalidade da vida transformava até velório em um momento de encontros. Dona Arminda, idosa, debilitada fisicamente adoece lá no Rio de janeiro, onde mora há anos junto a vários membros da família.

Em Atílio Vivacqua, interior do Espírito Santo, mora a maior dos seus parentes. Os dias passam, Dona Arminda piora. Dois meses internada, o quadro se agrava, UTI.

A família da pequena cidade acompanha aflita. Pouco tempo pós pandemia, as notícias são incertas. Os médicos limitam as visitas, ainda carregam o receio da Covid – 19.

As notícias nem sempre chegam de forma clara. Morreu Dona Arminda, chega a triste notícia a pequena cidade de Atilio Vivacqua, vindo do Rio de Janeiro. A notícia chegou de madrugada, família e amigos se reúnem aos poucos a espera do corpo que viajará até sua última morada.

Às nove da manhã, toda a cidade se comovia com a perda e enchia a igreja católica a espera do corpo que chegaria do estado vizinho. O sobrinho da vítima, que também é o coveiro e tem a chave do cemitério, não precisa esperar o dia clarear, entristecido cava a cova.

Tudo pronto para o velório, cova feita, igreja lotada, música triste e o corpo não chega. A família encontra dificuldades para falar com os filhos da falecida no estado do Rio, alguns familiares viajam a caminho do Espírito Santo.

Uma senhora entra na igreja cheia e se senta no último banco. Sofrendo com a perda ninguém dá atenção. Os minutos se passam e a senhora percebe estar em um velório e não na missa de domingo e curiosa pergunta:

— De quem é o velório?

Nesse momento algumas pessoas a enxergam e sua sobrinha diz:

— Uai, tia, é da senhora.

— Como assim? Estou viva.

— Mas ligaram para cá dizendo que a senhora morreu e a senhora estava mal na UTI.

— Não sei quem foi o idiota que falou que morri, eu melhorei, os médicos não queriam me mandar para o quarto, fugi da UTI, peguei o ônibus e vim para cá.

Novo alvoroço, avisar a família que viajava que a velhinha não estava morta, era só uma fujona.

Chegam as duas filhas desesperadas à procura da idosa após não a encontrar no hospital.

Alguém lembra da cova.

— E o que fazemos com a cova? Tem que fechar.

— Vou fechar nada, tem um monte de velho nessa cidade, deixa aberta.

Dizem que ninguém morreu por um longo período só pela cova aberta.

……………………………..

“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”
Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.
Atualmente reside em Cachoeiro de Itapemirim-ES.

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