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Vozes da Literatura

Ramos António Amine, de Moçambique para o mundo

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Fotos Arquivo Pessoal

Entre o Niassa e o mundo, Ramos António Amine constrói uma escrita que não pede licença para incomodar. Formado em Ensino de Filosofia e professor no norte de Moçambique, ele troca a sala de aula pela página para dissecar a desumanização do nosso tempo. Com textos publicados na Revista Upile, no Jornal O Destaque, no Jornal Ngani e no Jornal Cultural ROL, do Brasil, Amine defende uma literatura que é ao mesmo tempo denúncia, alegoria e exercício de pensamento. Semifinalista da 4ª edição do Prémio Literário Carlos Morgado em 2026, ele chega à coluna falando de um gesto que para ele é decisivo: tornar público aquilo que existe para ser percebido.

Nesta entrevista, o escritor fala sobre o lugar da ficção como abrigo da filosofia, sobre as fontes que alimentam seus contos e crónicas, e sobre os desafios de manter uma produção sistemática num tempo que cobra visibilidade imediata. Aborda ainda a revisão como ato de fidelidade à própria voz, a relação com leitores que atravessam fronteiras linguísticas e o papel dos portais culturais independentes na formação de novos públicos. Para Amine, escrever é recusar o silêncio cúmplice. E é a partir desse princípio ético que ele projeta livros, diálogos e um projeto literário em permanente construção.

Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, você reconhece como decisivo em sua trajetória? O que o levou a tornar seus textos públicos?

É sempre ético, antes de tudo, agradecer pela iniciativa e pela oportunidade que me é concedida de, por este meio, falar do mundo para o mundo, a partir do mundo.

Movido pelo desejo de devolver, em forma de talento e excelência, aquilo que a natureza me concedeu em forma de dons, venho escrevendo há quase uma década.

Entretanto, considero o ano em curso (2026) como o píncaro da minha aventura literária, pois foi neste ano que, de tanto insistir, vi abrirem-se as portas de várias plataformas de circulação digital. Refiro-me à emergente Revista Upile, dedicada à promoção e divulgação da cultura do Niassa; ao Jornal Ngani (Nampula); ao Jornal O Destaque (Maputo); e ao Jornal Cultural ROL (Brasil).

À primeira vista, pode parecer um gesto trivial para os espíritos que se julgam grandes. Para mim, porém, trata-se de um marco sublime, jamais alcançado por mera casualidade. Orgulho-me desse percurso porque aos poucos vou rompendo as barreiras convencionadas pela indústria literária e, hoje, conto com textos inéditos a circularem em plataformas de reconhecido prestígio.

Decidi tornar públicos os meus textos não apenas quando tomei consciência de que tinha um mundo a desvendar para o mundo, mas também quando, por meio de George Berkeley, compreendi que existir implica ser percebido. E uma das formas de ser percebido consiste precisamente em tornar público o meu pensamento.

“A ficção permite ao escritor desenterrar as causas últimas ocultas por detrás de um mundo que se despedaça”

Entre conto, crónica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual género você encontra maior liberdade e precisão para dizer o que deseja? Por quê?

Julgo ser a ficção literária, na sua espécie de conto. Trata-se de um juízo que se torna defensável a partir da minha formação em Ensino de Filosofia.

Nos tempos que correm e, de certo modo, desde Voltaire, autor de Cândido, até Sartre, autor de A Náusea, a ficção literária foi frequentemente colocada ao serviço da Filosofia, assim como esta última estivera, durante a Idade Média, ao serviço da Teologia.

Esta escolha revela-se ainda mais pertinente num tempo em que escrever Filosofia de forma directa, no sentido mais rigoroso do termo, se tornou um exercício cada vez mais comprometedor. É precisamente aí que a ficção literária se afirma como uma via privilegiada, por conservar em si a força da alegoria.

A ficção permite ao escritor desenterrar as causas últimas ocultas por detrás de um mundo que se despedaça, sem que aqueles que o despedaçam se reconheçam de imediato nas páginas que leem. Não se trata de medo da morte. Nada disso. O que está em causa é o desejo de permanecer vivo para continuar a exumar as causas da desumanização.

“A escrita nunca nasce de uma única nascente”

Quais são as fontes mais recorrentes da sua escrita: experiências pessoais, observação do quotidiano, memória, leitura de outros autores, pesquisa, diálogo com outras artes ou algo diferente?

Esta é uma questão que, muitas vezes, coloca à superfície a arrogância de certos escritores. Diante dela, parece ter-se tornado paradigma afirmar que cada escritor é a sua própria influência. Em última análise, porém, isso não passa de orgulho inflamado, pois tornamo-nos cada vez mais humanos na relação com o outro, com o trabalho e com a natureza.

Para ser sincero, não existe, para mim, uma única fonte que se imponha como a mais recorrente na minha escrita. O mais justo é dizer que ela resulta da confluência de experiências pessoais, da observação do quotidiano, da memória, da leitura de outros autores, da pesquisa e do diálogo.

Por isso, um leitor atento encontrará nos meus textos a presença de todas essas fontes. Encontrará experiências pessoais, como em A Guardiã dos Avisos Ignorados; a observação do quotidiano, em textos como A Urna Veio?, A Prostituta Ressuscitada e o Altar da Hipocrisia e O Cálice da Prostituta e a Comunhão dos Ímpios; e também a memória, a pesquisa e o diálogo permanente com outros autores.

A escrita nunca nasce de uma única nascente. Ela é sempre o resultado de um encontro entre a experiência vivida, a leitura do mundo e a capacidade de imaginar aquilo que ainda não existe.

Que condições de trabalho sustentam a sua produção literária? Você depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de estímulos mais circunstanciais?

Apesar de resultar da confluência de várias fontes, a minha escrita não é esporádica, nem nasce de estímulos meramente circunstanciais. Ela assenta na consistência, na coerência e na sistematicidade, qualidades que devo, em grande medida, à formação em Ensino de Filosofia e aos anos de leccionação desta disciplina.

Essa disciplina faz com que a minha escrita seja facilmente compilável em livro, porque os textos obedecem a uma estrutura interna coerente. Basta observar o edifício literário que venho construindo em A Quinta dos Ímpios. Do poema inaugural até O Sétimo Sinal, cada texto representa uma etapa de uma mesma construção literária.

É precisamente essa continuidade que me permite afirmar que não escrevo apenas textos isolados. Escrevo um projecto literário em permanente edificação.

Quando trabalha com ficção narrativa, como descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde?

É um exercício de permanente ginástica criativa.

Tive essa sensação quando conduzi, de forma consciente, o protagonista principal de Os Sinais da Quinta para o santuário. Contudo, à medida que a história avançava, compreendi que aquele espaço não podia esgotar todo o edifício literário.

Foi então que me senti encurralado pela própria ficção. Esse impasse obrigou-me a reinventar o enredo e a encontrar uma saída para o protagonista.

É nesses momentos que a personagem começa a ganhar autonomia. Ela deixa de obedecer apenas aos desígnios do autor e passa a impor as exigências da própria história.

Por isso, não acredito que exista um instante exacto em que uma personagem se torne suficientemente complexa. A sua densidade constrói-se à medida que a narrativa avança, até alcançar uma síntese que poderá converter-se na tese de uma nova ficção.

“Uma boa revisão não deve produzir um texto diferente do original”

Como funciona a revisão no seu processo? O que costuma mudar, de modo decisivo, entre a primeira versão de um texto e aquela que você considera publicável?

A revisão é, também, o momento mais decisivo para qualquer escritor que preze pelo rigor conceptual e pela profundidade que a escrita exige. É aí que reside um dos maiores desafios da criação literária. Rever um texto pressupõe domínio da língua e das suas regras. Significa que, para além de saber escrever, o escritor deve ser também um bom revisor, sob pena de entregar a sua voz a quem, muitas vezes, não compreende a essência da sua escrita.

Senti isso nos primórdios da minha aventura literária. Naquela altura, limitava-me a escrever e confiava a revisão a terceiros. O problema é que alguns não se limitavam a corrigir a ortografia ou a gramática. Entravam no pulsar da ficção, alteravam o enredo, aparavam as arestas, acrescentavam o seu próprio suor à escrita e, desse modo, modificavam-lhe o fôlego. Havia até quem, em vez de rever o texto, o reescrevesse por completo. O resultado era uma obra diferente da original. E isso frustra, sobretudo quando o autor sabe exactamente o que pretende dizer.

Foi então que fiz uma promessa a mim mesmo: antes de qualquer criação literária, deveria blindar a minha mente com o domínio das regras fundamentais da língua em que escrevo. Essa decisão transformou profundamente a minha relação com a escrita. À medida que fui conquistando maior domínio das palavras, aprendi também a manuseá-las com mais precisão e liberdade.

Hoje, posso afirmar que uma boa revisão não deve produzir um texto diferente do original. Deve apenas torná-lo mais rigoroso, mais claro e mais fiel à intenção do autor. O segredo está justamente aí: rever sem deixar de soar a si mesmo. Os meus leitores devem ser capazes de reconhecer a minha voz em qualquer texto que assine.

Infelizmente, essa identidade autoral tem-se perdido com frequência, sobretudo quando escritores emergentes entregam cegamente o processo criativo à inteligência artificial. Como consequência, multiplicam-se textos tecnicamente correctos, mas destituídos de voz própria, escritos e reescritos até adquirirem um evidente cheiro à automação, sinal do progressivo empobrecimento do espírito criador.

É tempo de contrariarmos essa tendência, começando pela educação. Os nossos filhos precisam de compreender que a literatura sempre exigiu tempo, concentração e pensamento crítico: tempo para amadurecer a escrita; concentração para resistir à sedução do reconhecimento imediato; e pensamento crítico para distinguir aquilo que merece ser publicado daquilo que ainda precisa de ser trabalhado.

O que a publicação no Jornal Cultural ROL alterou — ou confirmou — na sua relação com a escrita, com os leitores e com outros autores de língua portuguesa?

Por uma questão de foco, senti a necessidade de organizar a minha escrita em duas vertentes. Uma de natureza científica; outra, essencialmente literária.

Na primeira, publicada todas as segundas-feiras no Jornal O Destaque (Maputo), dedico-me à escrita de artigos de opinião e ensaios filosóficos centrados em Moçambique, em África e no mundo. A intenção é reuni-los, oportunamente, num livro de pensatentos, à semelhança do percurso feito por Mia Couto com muitos dos seus textos publicados na imprensa.

A segunda vertente encontra espaço no Jornal Cultural ROL (Brasil). É nela que desenvolvo a minha escrita literária por meio da poesia crítica, das crónicas de intervenção social e dos contos de inspiração filosófica.

Se me perguntassem em qual dessas vertentes mais me reconheço, responderia que ambas me definem. No entanto, neste momento da minha trajectória, é a literatura que melhor traduz a fase que atravesso. Foi ela que me conduziu à lista dos semifinalistas do Prémio Literário Carlos Morgado – 4.ª edição (Moçambique, 2026), distinção alcançada graças a um dos textos publicados no Jornal Cultural ROL.

Esse reconhecimento veio confirmar aquilo em que sempre acreditei: a minha ficção literária encontrou leitores para além das fronteiras do meu país. Ao mesmo tempo, confirmou a importância do Jornal Cultural ROL enquanto projecto que procura unir o mundo por meio da cultura, dando continuidade ao ideal do seu fundador, Hélio Rubens, hoje prosseguido pelo editor Sergio Diniz.

Há, porém, outro aspecto que considero igualmente relevante. Foi através do Jornal Cultural ROL que conheci pessoas extraordinárias, capazes de traduzir alguns dos meus textos para o árabe e para o italiano. Para Moçambique, poderá parecer um gesto discreto; para mim, representa um marco significativo, pois significa que a minha escrita começou a dialogar com leitores pertencentes a outras geografias linguísticas.

O desafio que agora assumo é o de incentivar mais escritores moçambicanos a integrarem o quadro de colunistas do Jornal Cultural ROL. Até ao momento, o jornal conta apenas com dois escritores moçambicanos, ambos oriundos do norte do país. Estou convencido de que a presença de mais vozes moçambicanas enriqueceria ainda mais esse espaço de encontro entre culturas.

Reconheço, contudo, que esse objectivo não será fácil de concretizar. A linha editorial do jornal exige regularidade, disciplina e compromisso permanente com a escrita. Encontrar autores dispostos a manter esse ritmo de publicação contínua não é tarefa simples, sobretudo num país de forte tradição oral e onde a escola ainda faz pouco para cultivar, de forma consistente, o hábito da escrita.

Há algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado a sua percepção sobre um texto, sobre o público ou sobre a função daquilo que escreve?

Sem sombra de dúvida. Refiro-me, em particular, ao meu texto poético A Quinta dos Ímpios. Trata-se de uma poesia crítica e de intervenção social que pode resumir-se numa única expressão: “O silêncio é cúmplice.”

Após a sua publicação no Jornal Cultural ROL, fui conquistando novos leitores em diferentes espaços da lusofonia. Nos primeiros tempos, muitos não compreendiam o núcleo da minha escrita. Recebiam os textos com alguma indiferença. Atribuo esse desinteresse, em parte, ao facto de vivermos num tempo em que as pessoas se habituaram ao consumo rápido de conteúdos imediatos, apelativos e efémeros, deixando pouco espaço para uma literatura que exige contemplação e reflexão.

Com o passar do tempo, porém, e graças à persistência na divulgação do meu trabalho, comecei a despertar a atenção de novos leitores. Recordo-me de um episódio que nunca esquecerei. Um antigo colega da universidade, depois de durante muito tempo acompanhar silenciosamente as minhas publicações, escreveu-me um dia:

“Sabes, só hoje decidi ler os teus textos.”

À primeira vista, aquela confissão magoou-me. Revelava que eu vinha partilhando os meus escritos com alguém que nunca lhes tinha dedicado atenção. No entanto, após a surpresa inicial, compreendi que a literatura também exige paciência. Nem todas as sementes encontram imediatamente um solo fértil. E, fazendo minhas as palavras de Albert Einstein, nenhuma mente que se abre a uma nova ideia volta alguma vez ao seu tamanho original.

Apesar dos dissabores, houve quem acreditasse desde cedo na minha escrita e nela visse algo digno de ser desenvolvido. Refiro-me a Miguel Chiyo Tomás, jovem angolano e estudante de Ciências Sociais e Humanas, que, ao comentar regularmente os meus textos publicados no Jornal Cultural ROL, acabou por se familiarizar profundamente com eles.

Foi dessa leitura atenta que nasceu a iniciativa de reeditar, sob a forma de diálogos, alguns dos meus artigos publicados no Jornal O Destaque, tornando-os mais acessíveis a leitores menos habituados à densidade filosófica da escrita ensaística.

Foi também dele a sugestão que considero decisiva para o futuro da minha obra: interromper a publicação sequencial dos textos sobre A Quinta dos Ímpios e avançar para a sua compilação em livro. Essa ideia abriu caminho à possibilidade de publicar a obra em dois volumes, preservando a curiosidade dos leitores e permitindo que a narrativa amadurecesse como um verdadeiro projecto literário.

É isso que espero da literatura: que continue a suscitar perguntas, a prolongar a curiosidade e a impedir que o silêncio se torne cúmplice.

Na prática, o que os jornais culturais independentes e a circulação digital tornam possível para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remuneração continuam presentes?

Depende do foco de cada escritor. Entendo que existem, em termos gerais, dois perfis de escritores.

O primeiro é constituído por aqueles que escrevem para agradar, entreter e contemplar o lado mais lírico e confortável da existência. São, por isso, mais facilmente acolhidos pelo mercado editorial e, muitas vezes, promovidos pela própria indústria literária, porque não representam uma ameaça à ordem estabelecida. A desvantagem, porém, é que a sua escrita tende a envelhecer mais depressa.

O segundo perfil é o dos escritores que escrevem para dissecar a podridão da alma humana e denunciar as nuances do seu tempo. Esses não procuram agradar, nem esperam autorização para existir. Escrevem porque sentem que precisam de o fazer. Interpelam, incomodam e, por isso mesmo, a sua escrita tende a resistir melhor ao tempo.

Dependendo do caminho que cada autor escolhe, os jornais culturais independentes e a circulação digital podem representar tanto uma oportunidade de afirmação como um percurso particularmente difícil. Em qualquer dos casos, os desafios continuam a ser maiores do que as facilidades.

A circulação digital exige do escritor uma presença constante nas redes sociais. Primeiro, é preciso conquistar leitores. Chamo a essa etapa a caça aos leitores. Depois, é necessário manter viva a relação com aqueles que foram conquistados, oferecendo-lhes novas reflexões, novos textos e novas razões para permanecerem. Caso contrário, facilmente se afastam. Por fim, torna-se indispensável ampliar continuamente esse círculo, alcançando novos públicos.

Tudo isso exige dedicação quase permanente: tempo, acesso à internet, investimento na divulgação, gestão da própria imagem e uma rede de pessoas dispostas a partilhar e ampliar o alcance do trabalho realizado.

Como se pode perceber, trata-se de um esforço exigente e, por vezes, desgastante. Há ainda um risco silencioso: o escritor pode acabar por confundir a necessidade de divulgar a sua obra com a necessidade de estar constantemente presente. A escrita deixa, então, de ocupar o centro, cedendo espaço à exposição.

Acresce que se trata de um investimento cujos resultados raramente são imediatos. Muitos escritores passam anos sem colher os frutos do seu trabalho e alguns nem chegam a vê-los em vida.

Apesar disso, considero que vale a pena enfrentar esse caminho. No caso do Jornal Cultural ROL, os escritores têm a felicidade de contar com uma equipa editorial que não exige qualquer contrapartida financeira para publicar os textos. Exige apenas aquilo que verdadeiramente importa: qualidade, rigor, coerência e ineditismo.

É certo que muitos desistem pelo caminho. Ainda assim, continuo convencido de que os desafios da escrita justificam plenamente o esforço que ela exige. Afinal, uma literatura que não custa a construir dificilmente deixará marcas duradouras.

Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no Café Literário/Notibras: que diferenças você percebe entre esses públicos e entre as formas de recepção dos textos em cada veículo?

Conheci o Café Literário/Notibras por intermédio do Jornal Cultural ROL. Por isso, seria precipitado da minha parte estabelecer uma comparação definitiva entre os dois públicos.

Ainda assim, penso que existem diferenças evidentes entre ambos os projectos. O Café Literário/Notibras dedica-se, sobretudo, a dar visibilidade a escritores independentes que dificilmente encontram espaço nas grandes editoras. O Jornal Cultural ROL, por sua vez, persegue uma ambição mais ampla: unir o mundo por meio da cultura.

Essa vocação torna-se visível na sua própria história. Com mais de três décadas de existência, o ROL construiu uma rede de colunistas e correspondentes distribuídos por vários continentes, alcançando uma presença internacional difícil de ignorar. O Café Literário/Notibras, sendo um projecto mais recente, iniciado no final de 2024, percorre naturalmente um caminho diferente, ainda em consolidação.

Apesar dessas diferenças, considero que ambos cumprem, com mérito, a missão que assumiram. Um oferece visibilidade a escritores independentes; o outro promove o encontro entre culturas por meio da literatura. Longe de se excluírem, completam-se.

Se assim não fosse, dificilmente esta entrevista teria acontecido. Ela própria demonstra que continuam a surgir espaços capazes de aproximar escritores, leitores e diferentes comunidades da língua portuguesa.

Que sentido há em manter ficção, poesia e crítica cultural dentro de um portal jornalístico marcado pelo fluxo das notícias? Essa convivência altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?

À primeira vista, poderá parecer pouco natural reunir ficção, poesia, crítica cultural e notícias num mesmo espaço editorial. São linguagens com ritmos e finalidades distintas. No entanto, o mundo digital desafia constantemente as fronteiras tradicionais entre os géneros e leva muitos portais a oferecer conteúdos diversificados num único lugar.

Essa convivência produz consequências. O escritor pode sentir-se tentado a ajustar a sua escrita ao ritmo acelerado da actualidade ou às expectativas da plataforma que o acolhe. Quando isso acontece, corre-se o risco de entrar naquilo a que chamo a literatura da conveniência: uma literatura moldada mais pelas exigências da circulação do que pela fidelidade ao projecto estético do autor.

Creio, porém, que os portais que preservam uma identidade editorial clara acabam por prestar um serviço mais duradouro à literatura. Quando o leitor sabe exactamente o que encontrará num determinado espaço, cria-se uma relação de confiança que beneficia tanto quem escreve como quem lê.

Num tempo dominado pelo instantâneo, o maior acto de resistência passa necessariamente por preservar um lugar onde a literatura continue a ser reconhecida como literatura.

Qual é, hoje, o obstáculo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estratégia tem funcionado e qual você considera superestimada?

Mais do que falar de obstáculos, prefiro falar de desafios. Formar leitores recorrentes é, sim, o maior desafio de um escritor independente.

Escrever com regularidade e divulgar continuamente o próprio trabalho são exigências inseparáveis. Nenhuma delas é simples. A ausência de foco e de determinação pode levar muitos escritores a desistirem antes mesmo de encontrarem os seus leitores.

No meu caso, a estratégia que mais resultados tem produzido consiste em anunciar previamente cada publicação nas minhas páginas oficiais do Facebook, WhatsApp, Instagram e por correio electrónico. As imagens que acompanham esses anúncios despertam a expectativa dos leitores e criam um compromisso silencioso entre quem escreve e quem espera pela próxima publicação.

O trabalho, porém, não termina quando o texto é publicado. Considero igualmente importante promover debates com os leitores, procurando compreender de que forma interpretaram o texto e até que ponto as ideias nele contidas suscitaram reflexão. É nesse diálogo que a escrita continua a amadurecer.

Como se pode perceber, trata-se de uma actividade exigente. Em larga medida, é quase uma vida dedicada às redes sociais. É aí que reside o maior desgaste.

Quanto às estratégias que considero sobrestimadas, penso que muitos escritores depositam excessiva confiança na procura imediata de reacções, partilhas e números. Acredito mais na construção paciente de uma comunidade de leitores do que na ilusão de uma popularidade instantânea.

Ao imaginar alguém lendo sua obra, que tipo de experiência você espera provocar? Há efeitos que você deliberadamente evita buscar no leitor?

Entendo que o papel do escritor é, antes de tudo, escrever. O leitor, esse, é soberano. Por isso, prefiro deixar que cada um construa o seu próprio mundo a partir daquele que proponho nos meus textos.

Não cultivo expectativas rígidas sobre aquilo que o leitor deve sentir ou pensar. Cada pessoa chega à literatura com experiências, referências e percursos diferentes, e são essas diferenças que tornam cada leitura única.

Há leitores que acompanham A Quinta dos Ímpios imaginando-se no lugar do protagonista. Outros identificam nessa personagem alguém próximo de si. Alguns chegam mesmo a pensar que o protagonista sou eu próprio. Há ainda aqueles que percorrem caminhos completamente distintos. Todas essas possibilidades são legítimas.

A literatura torna-se mais rica quando permite ao leitor participar activamente na construção do sentido. Depois da leitura, pouco importa se ele termina a viagem embriagado, inquieto, apaixonado ou até ressentido. Essas experiências pertencem-lhe. A obra apenas abre a porta; o percurso passa a ser do leitor.

Há um projecto em curso — livro, colectânea, pesquisa, novo género, revista, oficina ou outra iniciativa — que ajude a compreender o momento actual da sua escrita?

Sim. Para além do livro que publicarei oportunamente, há uma iniciativa que considero particularmente promissora. Trata-se da reedição, em forma de diálogos, dos meus textos sobre A Quinta dos Ímpios, conduzida por Miguel Chiyo Tomás.

Segundo a sua leitura, muitos leitores encontraram dificuldades para acompanhar a densidade filosófica da obra. Daí nasceu a proposta de converter parte desses textos em diálogos, tornando-os mais acessíveis sem sacrificar a essência do pensamento que os sustenta.

Não se trata de ajustar a escrita aos gostos do público, nem de simplificar as ideias para conquistar leitores. Trata-se, antes, de encontrar novas formas de comunicação que preservem a profundidade da obra e, ao mesmo tempo, ampliem o seu alcance.

Continuo convencido de que o mundo não deixou de ler por falta de tempo; está, isso sim, cansado de textos neutros, incapazes de tomar posição diante da realidade.

É por essa razão que os diálogos e os cartazes de divulgação fazem parte de uma mesma estratégia: aproximar novos leitores de uma literatura que procura interpelar o seu tempo, e não apenas entretê-lo.

Que prática, escolha ou disciplina recomendaria a quem começa a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita considera insuficiente ou enganoso?

A quem começa a publicar, recomendaria, antes de tudo, foco e determinação. A literatura exige ambos.

Mais do que ler os clássicos, cultivar experiências pessoais ou dialogar com outros autores, aconselharia o escritor principiante a preservar uma faculdade que frequentemente é negligenciada: a imaginação. É ela que, muitas vezes, move mundos e torna possível aquilo que parecia irrealizável.

Diria também que não se deixe seduzir pela literatura apressada nem pela escrita com cheiro de automação. A boa literatura deixa sempre transparecer o trabalho humano que a sustenta.

Outro conselho é que nunca escreva movido exclusivamente pela expectativa da fama. A literatura raramente recompensa de imediato. Exige tempo, persistência e, não poucas vezes, solidão.

Depois da publicação, não se deixe medir apenas pelo número de reacções, comentários, partilhas ou “gostos”. Esses indicadores dizem pouco sobre o verdadeiro alcance de uma obra.

Escreva porque sente que deve escrever. Se o texto possuir valor intrínseco, será o tempo e não o algoritmo a encarregar-se de lhe fazer justiça.

Estou convencido de que muitos escritores não fracassam por falta de talento ou de profundidade, mas porque se tornam excessivamente dependentes da aprovação social. A escrita começa quando essa dependência termina.

Que pergunta sobre a sua escrita ou sobre a literatura contemporânea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda não apareceu?

Perguntar-me-ia qual é a palavra que melhor resume a minha escrita.

Responderia sem hesitação:

O silêncio é cúmplice.

Mais do que uma frase, é um princípio ético. É a ideia que atravessa a minha literatura, os meus ensaios e a forma como procuro olhar para o mundo.

Escrever, para mim, nunca foi um simples exercício estético. É uma forma de recusar a cumplicidade diante da injustiça, da desumanização e da indiferença.

Se, depois da leitura, o silêncio deixar de parecer uma opção, então a literatura já terá cumprido a sua parte.

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Biografia do escritor

Ramos António Amine consagrou-se como semifinalista da 4ª. do Prémio Literário Carlos Morgado – edição de 2026. É moçambicano, formado em Ensino de Filosofia. Leccionou a disciplina de Introdução à Filosofia, na Escola Secundária São Martinho de Lima – Diocese de Lichinga, no Niassa e no Colégio Nelson Mandela, Cidade de Lichinga. Actualmente, lecciona a disciplina de Filosofia em Massangulo, na província do Niassa. Dedica-se à escrita de poesia crítica e de textos literários marcados pela reflexão filosófica e social. Tem textos publicados na revista Upile – uma plataforma digital que promove a divulgação da cultura do Niassa, não só. É colunista residente do Jornal Destaque (Maputo) onde assina artigos de opinião e textos literários. Também é colunista do Jornal Cultural ROL (Brasil), tendo publicado textos dentre eles, ‘A guardiã dos avisos ignorados’, ‘A prostituta ressuscitada”, ‘O cálice da prostituta’, ‘O altar da hipocrisia’, ‘A comunhão dos ímpios’, ‘A quinta dos ímpios’, ‘Depois da quinta’, ‘O terceiro sinal’ e ‘O quarto sinal’. Produz ainda vídeos de teor poético, nos quais cruza palavra, pensamento e sensibilidade estética. A sua escrita dialoga com os dilemas contemporâneos da sociedade moçambicana.

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