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Reminiscências

Recordando o passado…

Publicado

Autor/Imagem:
Tania Miranda - Foto Francisco Filipino

Vai, vai, vai boi
Cabeça baixa, passo lento no estradão
Vai, vai, vai boi
Estrada afora, vai puxando o carretão
(Velho candieiro – José Rico e Duduca)

A juventude de hoje não faz ideia, mas a cidade onde vivemos já foi aquilo que comumente chamamos de “interior”… mata fechada, vários animais compondo a fauna, rios e córregos abastecendo a população com sua água límpida, ainda livre da poluição…

Há não muito tempo o verde tomava conta da maior parte da face da Terra…havia variações de temperatura, é claro… inverno rigoroso, verão inclemente… a época das secas era terrível em alguns anos, em outros, nem tanto. O frio… bem, esse sempre vinha com todo rigor. Tanto que, para se aquecer, as famílias construíam fogões a lenha dentro de casa, para que as brasas da madeira queimada esquentassem o ambiente…

Havia anos em que a temperatura permanecia baixa além da época esperada. E as pessoas se aqueciam como conseguiam. As roupas quentes eram poucas, e os cobertores, escassos. Portanto, a versatilidade das donas de casa para contornar a situação era essencial…

A aguardente era usada pelos peões como um aquecedor pessoal. Uma vez embriagados, a sensação de frio não os incomodava tanto. Podiam partir para seus afazeres, como a lida do gado ou o cuidado com a plantação. Aliás, a aguardente era vista como um remédio… em quase todas as situações tomava-se um gole da mesma para prevenir alguma coisa…

Isso posto, dá para entender por que tantas pessoas acabavam viciadas na “branquinha”, não é mesmo? Afinal, ela era tomada com fins medicinais, entre outros…

As ruas, de terra batida, levavam ao centro dos povoados, onde se vivia como “na cidade”, ou seja, o Centro… é onde ficavam as vendas (pequenos comércios onde se encontrava de tudo, como nos atuais supermercados… a diferença é que o atendente é que separava as mercadorias para o freguês… e logicamente, o estabelecimento era pequeno, não tinha as dimensões gigantescas dos dias de hoje…), as farmácias (onde o farmacêutico atuava como médico em casos de emergência), quitandas e açougue…era tudo o que se encontrava no centro de cada bairro. Havia também o barbeiro e, aqui e ali, um depósito de materiais para construção. A maioria das vilas nascia em torno de uma igreja, que era a padroeira daquele bairro em questão…

Lojas de roupas existiam, mas só nas regiões centrais de cada área. Era mais comum mandar fazer a roupa em um alfaiate (no caso dos homens) ou em uma costureira (no caso das mulheres)…

Era comum a passagem do gado pelas estradas, a caminho do pasto, da invernada ou do matadouro. O carro de boi era usado para transportar quase tudo. Carros, quase não haviam. Os ônibus ainda estavam chegando… o transporte mais comum, depois do cavalo e do carro de boi, era a bicicleta. Era com ela que os homens saiam toda manhã em direção ao seu trabalho. E que no final de semana os levava para o campo, para assistirem ou participarem de jogos de futebol…

Em quase todos os recantos havia um campo de futebol… os terrenos vazios faziam a vez de estádios e os jogadores podiam mostrar todo seu talento… inclusive para arrumar confusão…

Sim, foi uma época gostosa de se viver. Mas tudo muda, não é mesmo? Já quase não se vê florestas por onde passamos, os rios foram soterrados para que, em seu lugar, fossem levantados prédios que iriam melhorar a vida das pessoas….

Os pássaros não mais cantam por aqui, as flores foram aos poucos desaparecendo e, com elas, a fauna que enfeitava nossos dias… beija flores, abelhas, borboletas… aos poucos foram sumindo, pois íamos destruindo tudo à nossa frente em nome do progresso…

Até o cheiro da chuva se modificou com o tempo… antes, quando se anunciava uma tempestade, o cheiro de eucalipto emanava do ar, nos deixando leves e tranquilas… e a relva molhada… pequenas poças d’água se formavam pelo caminho, e a grama dentro d’água, como um lago em miniatura, nos fornecia um espetáculo simplesmente divino…

Hoje, o que nos resta? Apenas saudade de um tempo que não volta mais… e a responsabilidade de educar a nova geração, fazendo-a entender que destruir a natureza é destruir a nós mesmos… nós começamos a devastação. Tudo o que desejamos é que nossos descendentes consigam reverter tal situação…

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