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Comida poética

Resistência no Nordeste tem sabor gostoso em mesa simples

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Autor/Imagem:
Acssa Maria - Texto e Foto

No sertão, a vida sempre foi escrita com sol forte, chão rachado e esperança teimosa. E foi nesse cenário de luta que nasceu uma alimentação simples, mas poderosa: farinha de mandioca, carne de sol, leite e queijo. Mais que comida, era sustento da alma e combustível da resistência.

A farinha de mandioca era presença certa na mesa. Fina, grossa, torrada ou misturada no pirão, ela acompanhava tudo. No prato do vaqueiro, no alpendre da casa de taipa, na marmita levada para o roçado — a farinha era o pão do sertanejo.

A carne de sol, salgada e curada no calor intenso, não era apenas técnica de conservação: era sabedoria ancestral. Preparada na brasa, desfiada na panela ou acompanhada de feijão verde, ela carregava o gosto forte da terra e da sobrevivência.

O leite fresco, tirado ao amanhecer, ainda morno, lembrava o cuidado com o rebanho, riqueza maior de muitas famílias. E do leite vinha o queijo — coalho firme, manteiga da terra, nata grossa — sabores que atravessam gerações.

No sertão, comer nunca foi exagero. Foi necessidade. Foi partilha. Foi estratégia de viver onde a chuva nem sempre vem. Cada alimento carrega uma história de adaptação ao clima seco, à distância dos centros urbanos e às dificuldades do semiárido.

Mas há também poesia nesse prato rústico. Porque, mesmo diante da escassez, o sertanejo transformou o pouco em abundância. Transformou mandioca em força. Transformou o sal em preservação. Transformou o leite em tradição.

E assim, entre o chiar da carne na brasa e o cheiro da farinha recém-torrada, o sertão segue ensinando que riqueza não está na fartura, mas na resistência. No fim das contas, aquela mesa simples sempre foi mais que alimento: foi identidade.

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