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Julinho e suas neuroses

Rinocerontes, girafas e meus pais

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Meus pais estão separados há tanto tempo que, para mim, não faz o menor sentido voltarem a dividir o mesmo teto. Pode parecer estranho para quem ouve isso, talvez filhos que sentem falta desse convívio entre os genitores, como se tal enlace fosse sentido de união, harmonia, sei lá, coisas de anúncio de margarina.

Não, definitivamente não! Seria estranho acordar e me deparar com a dona Lígia e o seu Horácio sob os lençóis amarrotados, o sorriso dos dois trocando beijos e, não duvido, afagos mais atrevidos. Preciso apagar essas imagens da minha mente, pois esses não são os meus pais.

Estava eu com meus cinco anos, exatos cinco anos, pois aquele era o meu aniversário, quando mamãe veio me contar que meu pai não iria mais morar conosco. Lembro-me do enorme bolo azul, retangular, encorpado, sobre a mesa da sala, das costas de papai, a camisa pouco amarrotada, passos tristes, cabelos ondulados. Senti falta de ver aqueles olhos azuis, o sorriso meio puxado para o lado esquerdo, a voz me dizendo “Julinho, vai ficar tudo bem”, as mãos desfazendo o meu penteado que mamãe acabara de fazer.

Na escola, quando me dei conta, senti olhares cortantes: “Esse aí, coitado, os pais são desquitados”. Sem saber, aquelas palavras me afetaram antes mesmo de entendê-las. Cheguei a sonhar que me gritavam “Júlio César Oliveira Desquitado da Silva”, e eu respondia “Presente”.

Mas hoje não! Não suportaria conviver com meus pais juntos. Quer dizer, me dou muito bem com os dois… Não tão bem assim com papai. Já com minha mãe, bem, apesar do amor que sinto por ela, na verdade carregado de culpa que não consigo explicar, a nossa convivência é razoável. É que a dona Lígia tem a inconveniente mania de se intrometer na minha vida, quer saber de tudo, com quem ando, quem são as garotas que, porventura, eu me envolva. Se minha mãe soubesse que muitas delas carregam o sobrenome Desquitado…

Ontem foi a minha formatura. Biólogo. Meus colegas pareciam mais eufóricos do que eu, aqueles sorrisos carregados de franquezas incômodas. E dona Lígia de mãos dadas com o seu Horácio. O que foi aquilo? Será? Não pode ser. Minha mãe, assim que voltamos para casa, me disse que há muito não se sentia tão feliz. Falou que vai me contar depois, não faço a menor ideia do que seja, disse que eu ficaria contente. Contente? Que palavra mais tola para descrever alguém, quer dizer, um adulto. Sim, há alguns anos sou crescido, ainda mais agora depois de graduado. Biólogo.

Só espero que dona Lígia não me venha com ideias… Que as coisas permaneçam como estão ou, então… O que posso fazer? Melhor nem pensar nisso, preciso arrumar emprego. Seria tão bom se todo mundo que se formasse já tivesse um monte de propostas fresquinhas batendo à sua porta. Já pensou que maravilha?

Nem sei o que vou fazer a partir de agora, talvez tentar um mestrado, dar aula, quem sabe até conseguir uma vaga em uma ONG, me embrenhar na Amazônia. Sempre fui atraído pelo Quênia, África do Sul, rinocerontes, búfalos, hipopótamos, leopardos, leões… Rinocerontes… Girafas também. O Pantanal também não seria ruim. Se eu não me mexer, vou terminar no asfalto.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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