O contista obscuro
Rodrigo fazia uso do codinome literário Judas Hardy
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Aos 55 anos, Rodrigo era um contista obscuro. Talvez por isso, resignado com a sua sorte, utilizasse o codinome literário de Judas Hardy, em referência ao romance Judas, o obscuro, e a seu autor, o escritor inglês Thomas Hardy.
O reconhecer-se obscuro não o impedia de escrever, como quem semeia, contos, contos à mão cheia. Infelizmente, contrariando o verso de Castro Alves, suas produções literárias não faziam o povo pensar. Isso porque, não sei se vocês lembram, ele não passava de um contista obscuro.
Aos 52 anos, Dolores era uma viúva catarinense. Depois de comer o pão que o diabo amassou servido pelas patas do marido, enviuvou e, meses depois, conheceu na internet o contista obscuro. Os dois namoraram e ela, carente de tudo, apaixonou-se por um homem que jamais vira em carne e osso.
Só que o amor, para Dolores, tinha sua temperatura medida pelo termômetro do ciúme: quanto mais alto marcasse o ciumômetro, mais intensa a entrega amorosa. Isso contrariava Rodrigo, que aprendera, a duras penas, a descartar o sentimento de posse na relação a dois.
– Dolores, ciúme não é prova de amor, é apenas manifestação de insegurança – ele insistia.
– É prova de amor, sim – ela retrucava. – Aprendi com a minha mãe, que aprendeu com a mãe dela!
O que mostra o estrago que uma visão de mundo tradicional, conservadora, pode causar no psiquismo de uma mulher.
O pior foi que o namoro chegou ao fim. Permaneceram amigos, mas Dolores, inconformada, passou a ter um ciúme doentio de todas as personagens femininas dos contos de Rodrigo. Ele havia criado, por exemplo, uma personagem nascida em Minas Gerais, unicamente porque conhecia o jeito de falar dos mineirim; foi o bastante para que a ex-namorada lhe enviasse uma postagem ressentida e amargurada, mal dissimulada sob uma camada de espírito esportivo:
– Boa noite, contista querido. Li seu texto falando de sua paixão por uma mineirinha. Legal, você continua amando. Bom saber disso, se cuida.
Controlando sua gastura, ele explicou pela milésima vez que a mineirinha era apenas uma personagem, não existia em sua vida. Seus contos eram ficção, fic-ção! Vocês pensam que adiantou? Horas depois, ela mandou nova mensagem:
– Contista adorado, enquanto eu viver, vou ter ciúmes de você.
Preocupado com a saúde de ambos – ele já tivera um leve AVC e ela também –, Rodrigo desistiu das explicações sobre insegurança e decidiu mudar. Só que parar com os contos que, apesar de sua admitida obscuridade, semeava à mão cheia, no melhor estilo castroalvesco, nem pensar.
O jeito era virar a banda.
Rodrigo vasculhou seu psiquismo em busca de transas ou quase transas homossexuais e encontrou algumas. Um episódio veio vívido, cheio de detalhes: um flerte com o filho de uma colega de redação, bem mais novo que ele, na casa de uma amiga. Ele reviveu a deliciosa sensação de perigo, o risco da entrega e de gostar em demasia da fruta, a profusão de perguntas começadas por “E se…” que passavam rápido por sua mente, a começar por “E se essa for a minha praia?” “E se for a minha opção sexual, tardiamente descoberta?”
O babado foi mesmo forte. A amiga que testemunhou o lance comentou mais tarde:
– Só faltou vocês ficarem noivos!
Trabalhando com todos esses elementos, Rodrigo escreveu um conto instigante, que recebeu o título de “Sedução”. Antes mesmo de postá-lo em suas redes sociais, enviou-o para Dolores pelo whatsapp.
A resposta veio minutos depois:
– Quer dizer, Rodrigo, seu fiodeumaegua (o “meu contista querido” fora descartado, chutado pras cucuias, pelo menos temporariamente), que, além de me trair com todas as vacas do planeta, você agora se enrosca com os homens? Quer me matar de ciúme? Agora, quando você sair pra encontrar um amigo, não vou ter um minuto de paz!
Rodrigo desistiu. O problema de Dolores não era amor, nem insegurança, era posse: ela queria controlar tudo o que ele sentia, pensava, escrevia e fazia, e enquadrar tudo isso dentro dos padrões rígidos de uma catarinense de meia idade.
Se esse era o problema dela, o dele era outro, bem diferente.
Lembrou-se de uma frase da amiga que assistira a seu flerte com o moçoilo. Famosa pelos bordões que inventava, ela dizia sempre, “Vai dar enquanto é moço”. Ele não era um jovenzinho, longe disso, mas ainda não estava caindo aos pedaços. Dava tempo. Mais, ainda percebeu que sua obscuridade como escritor, em boa medida, resultava da falta de luz dentro do armário.
Vestiu-se nos trinques e saiu pela noite paulistana, para obedecer ao comando recebido.